Não há Don Juan como o Marquês de Bradomín, pensei a propósito de alguém de que se dizia ser um autêntico Don Juan. Personagem central das quatro sonatas (Outono, Inverno, Primavera e Verão) que compõem o ciclo romanesco criado pelo galego Ramón del Valle-Inclán, o Marquês de Bradomín é um Don Juan “feio, católico e sentimental”, o que é já uma distorção quase grotesca da figura tradicional do Don Juan. O galante aristocrata, no fundo, é um Don Juan falhado, uma desconstrução, como agora não cessa de se dizer, da figura do conquistador engendrada, no século XVII, por Tirso de Molina e a que José Zorrilla deu uma torcedela, no XIX. Valle-Inclán não se conteve e distorceu a figura, dando-lhe a tal configuração quase grotesca, um prenúncio do esperpento. Mas isso não vem ao caso. O caso é que não há maior Don Juan do que o feio, católico e sentimental Marquês.
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