Há pouco, a propósito de já não sei o quê, pensei que estávamos a 10 de Agosto. Prossegui o raciocínio, imagino que um raciocínio prático, fundado nessa convicção. Agora que escrevo, descubro que estava enganado. Afinal, estamos a nove desse mesmo mês. Qual o motivo do equívoco? Procuro bem dentro do meu espírito e só encontro um, o tédio do Verão e a nostalgia do Outono. Bem, afinal são dois motivos, embora ligados pelo sentimento. Os domingos de praia são tão soturnos como qualquer domingo numa pequena cidade de província, e em Portugal todas as cidades, mesmo as maiores, são pequenas cidades de província. Mesmo a capital que, enquanto se dá ares cosmopolitas ao encher-se de turistas estrangeiros em busca do pastel de nata, se torna mais e mais provinciana. Eu não deveria estar a lastimar-me do provincianismo pátrio. Não sou um cosmopolita, não sou um cidadão do mundo. Sou o mais provinciano dos provincianos, que nunca o deixaria de ser mesmo que tivesse nascido e vivido toda a vida na mais cosmopolita das cidades, caso exista alguma. Ser provinciano como eu o sou, não é uma questão cultural, de educação, de pertença social, o que quiserem. É uma natureza, uma questão genética. Todos os meus genes são provincianos, embora detestem os domingos nas cidades de província e nas praias para onde a província foge aos domingos de Verão. Aliás, o domingo também nasceu com genes provincianos. Só o Outono não é provinciano, embora também não seja cosmopolita. Como posso provar as últimas afirmações? Não posso, como aliás não posso provar qualquer afirmação que faça. Não sou um procurador que tenha de provar, perante meritíssimos juízes, qualquer acusação. Aliás, não passo de um narrador cansado da sua narrativa.
domingo, 9 de agosto de 2026
sábado, 8 de agosto de 2026
Abdico, não abdico
Acordei estremunhado. Sim, deitei-me depois de almoço, para evitar adormecer sentado e acordar com uma má-disposição insuportável. Deito-me e leio um pouco, pensei. Logo me levanto e economizo o tempo de uma sesta com uma leitura. O pior é que o corpo não me obedece. Ordeno-lhe uma coisa, ele, de imediato, faz outra. Não li uma linha, mas tive direito a uma sessão de sonhos, imagino que extraordinários, pois o estremunhamento que me atingiu deve ter vindo de algum lado. Inocenta-me neste processo, mais uma vez, a autonomia do corpo em relação à vontade. Não lhe ordenei que sonhasse, mas ele, talvez com saudades de ir ao cinema, decidiu oferecer-se uma sessão gratuita. Devia ir fazer uma caminhada, mas está um calor pegajoso, que nem o meu corpo nem eu estimamos. É triste chegar a esta idade e constatar que nada nem ninguém me obedece. Talvez seja essa a razão por que há pessoas que, chegadas a onde cheguei, adquirem um cão de companhia. Têm esperança de que ele lhes obedeça. Depois vêm para a rua passear o animal e dar-lhe ordens, só para manterem um imaginado estatuto social de autoridade. Nunca acontecerá comigo. Prefiro ser como um rei que abdica. Entrego o trono, outro que dê ordens no meu lugar. Duvido, porém, que esta seja uma boa ideia. Se entregar o comando ao meu corpo, não sei se ele será suficientemente astuto para não me pôr a fazer figuras tristes. Tenho de pensar mais demoradamente no assunto da abdicação. Sobre o clima, já desisti de lhe dar ordens. Também não me ajoelho para lhe fazer orações peticionárias, nem, em contrapartida, uma acção de graças. Sofro o que ele me enviar. Devo, agora que penso no assunto, preservar, por mais algum tempo, a ilusão de que ainda posso comandar o meu corpo. A vida seria impossível sem ilusões e fantasias.
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Um espírito humilde
Simone Weil, segundo Georges Steiner, seria, entre os grandes espíritos femininos, aquele que é mais evidentemente filosófico, o que está familiarizado com a abstracção especulativa. Ora, nisto reside um equívoco. Nem a especulação, nem a abstracção, nem, tão pouco, a síntese das duas são suficientes para produzir um espírito filosófico. Eu posso especular sobre abstracções como o livre-arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a sociedade justa, sem que em momento algum me eleve à filosofia. Considere-se o seguinte aforismo: “Deus é a totalidade presente sob a forma de uma alteridade ausente.” É um proposição abstracta e especulativa, mas estamos longe de estar perante um exercício filosófico. Para tal, seria necessário que se desenvolvesse uma argumentação para fundamentar e tentar provar a verdade da afirmação, coisa que não se faz. A filosofia não é um exercício literário ou uma colecção de máximas e aforismos, por interessantes, abstractos e especulativos que sejam. É no Fédon que Platão faz dizer a Sócrates que os poetas compõem ficções, os filósofos, argumentos. Isto não significa que máximas e aforismos não sejam interessantes e merecedores de meditação. Significa, antes, que a filosofia é um espírito mais humilde, um espírito que se obriga a dar razões que justifiquem as afirmações que propõe, e que o faz de forma que outros as possam avaliar. A proposição referida acima, apesar de abstracta e especulativa, tem a forma de uma afirmação dogmática, na qual se crê ou não, mas está longe de ser filosófica.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Omnividência
No quarto poema do ciclo Sete Pinheiros, do livro Velas de Ignição, de Durs Grünbein, o quarto e último verso da primeira estrofe fez-me pensar na vida privada. A estrofe conta-nos o seguinte: Formigas vacilam no bordo do caminho, / Exércitos de operárias, carregam com esforço / As suas agulhas de pinheiro. / Não há vida privada no seu mundo. Tudo o que se passa nele está exposto à publicidade. Ora, e no mundo dos homens? Por um momento na história da humanidade pensou-se que a vida privada não apenas tinha sido descoberta como teria um valor quase absoluto. Essa preeminência do privado foi, porém, sol de pouca dura. A espécie humana, com a ajuda das redes sociais e do controlo algorítmico, emancipou-se do privado, entregando-se alegre à exposição pública. Talvez neste mundo, e quem sabe se em qualquer outro, não haja lugar para a vida privada. É plausível pensar que a ideia venha da religião. Para Deus, nenhum acto humano é privado, pois Ele tudo vê, tudo sabe. Para Ele tudo é público. Quando os homens de algum modo pretendem substituir Deus, a última característica divina que alienariam seria esse omnividência da vida de qualquer um. A vida privada, na religião antropocêntrica em que se vive, é o maior dos pecados, o verdadeiro pecado contra o espírito, aquele que não será perdoável.
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Atribuir estrelas
Há muito, embora já não me lembre quando e em que publicação, instituiu-se um hábito, que se tornou, como acontece com todos os hábitos enraizados, uma segunda natureza. Refiro-me à crítica literária e cinematográfica. Os críticos não se limitam a escrever sobre a obra em causa, como lhe dão uma classificação, através de um sistema de estrelas. De uma a cinco estrelas, embora já tenha visto filmes classificados com uma bola negra, que significa Mau. Há nesta prática uma infantilização que é absurda. Os críticos submetem obras a um sistema de avaliação decalcado do ensino básico, como se essas obras fossem o desempenho de alunos em busca de uma certificação académica, e eles, os críticos, examinadores com uma certificação superior aos examinados. Isto é absurdo e engana os leitores. A autoridade dos críticos é secreta, não se funda em nada que posso ser objectivamente reconhecido. Talvez gostassem de ser professores – um sonho de infância – para submeter os alunos ao jogo do castigo – porta-te bem ou levas uma estrela ou mesmo uma bola – e da recompensa – foste ao meu encontro, pensas como eu, levas cinco estrelas (expressão que me faz sempre lembrar as garrafas de vinho de um litro que antigamente existiam, e que continham uma bebida que estava longe de ser sequer suficiente). A infantilização encontra-se ainda num outro ponto. Qualquer ciência passa por diversas fases e, por analogia aos seres vivos, tem uma fase infantil. Em muitos casos, essa fase é de natureza classificatória, taxionómica. Distribui-se a realidade por classes, segundo certas características. Ao colocar obras de literatura ou de cinema sob classes identificadas pelo número de estrelas, o que se está a fazer é uma taxionomia. Mas é uma taxionomia secreta. Ninguém sabe quais são as características que permitem colocar uma obra em qualquer uma das classes. Isto é o grau zero do pensamento. Mais valia que as obras vítimas da atribuição de estrelas fossem classificadas por sorteio. Não seria mais injusto.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Vida quotidiana
O almoço, um peixe grelhado, acabou por se tornar pesado, vá lá saber-se a razão. O mundo e a vida das pessoas que estão no mundo é um mistério. Aquilo que parece ser uma coisa, olhado de perto mostra-se ser outra e, caso se insista na redução da distância, ainda se há-de mostrar como uma outra. É uma questão de ponto de vista, de perspectiva de onde se olha. Franzo as sobrancelhas perante a ideia. Não bebi o suficiente ao almoço para me tornar um relativista, cogito com os meus botões. Foram todos para a praia, só eu fiquei preso na solidão, como se vivesse numa torre de marfim. Aqui, porém, não há torres e o marfim tornou-se mercadoria proibida, o que me parece da mais elementar justiça. Queria falar de coisas importantes. Por exemplo, comecei o dia, após o pequeno-almoço, com uma caminhada. A névoa protegeu-me do sol. Depois, cortei o cabelo e a fiz a barba. Pareço um militar. Olhei para o espelho e gostei do que vi. Disse-me: pareces um monge-guerreiro. Fiquei a contemplar a metamorfose, mas não cheguei a nenhuma conclusão metafísica. Disseram-me: é assim que gosto de te ver, mas isto foi apenas um juízo de gosto. Também sobre isso não exarei qualquer sentença. A vida quotidiana é um exercício difícil. Depois de me tornar em monge-guerreiro, fui tomar café e comer uma bola-de-berlim. Sem creme, note-se. Ainda tive medo de que no café me dissessem: templários estão proibidos de entrar neste estabelecimento. Ninguém notou que eu me tinha transformado em monge-guerreiro. A verdade é que eu ia disfarçado. Tinha um panamá – autêntico, note-se – e julgaram que era um turista. Olharam para nós, ia acompanhado pela avó dos meus netos, e em vez de me dizerem que membros das ordens militares não podiam entrar, mesmo acompanhados por senhoras, começaram a falar em inglês. Há duas coisas que me aborrecem neste mundo. Em primeiro lugar, que quando me pareço com um templário, ninguém o reconheça. Depois, acharem que não sou português. Irrita-me. Não fora a gula, objectivada no desejo da bola-de-berlim, e tinha voltado costas. Assim, sentei-me e esperei. O que me intriga, todavia, é a razão de um peixe grelhado se ter tornado uma refeição pesada. Não devia escrever no rescaldo de uma refeição que se tornou pesada. O Verão avança. Mas o Outono, o doce Outono, ainda vem longe.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Um novo contributo
Passo a mão pela cara e penso que tenho de fazer a barba. Depois, esqueço esse imperativo e distraio-me com as notícias do dia, novidades que nunca são novas. Basta raspar-lhes um pouco da carapaça com que se apresentam, e logo se vê o padrão imemorial em que se inscrevem. Ao pensar nisto, ocorreu-me fabricar uma teoria, uma ciência, para sere mais preciso. A tese central é a seguinte: O mundo das notícias é composto por um número definido e finito de padrões, existentes a priori. Cada notícia inscreve-se num desses padrões, uma espécie de actualização empírica. Daqui decorre que é impossível haver em qualquer notícia algo de absolutamente novo, nem mesmo de um pouco ou quase nada de novo. Uma antiga intuição desta teoria encontra-se no Eclesiastes, capítulo 1, versículo 9: O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol. Contudo, isto é uma mera intuição, uma suspeita ainda não elevada à dimensão da Ciência. É esta a minha tarefa no dia que corre. Elevar à cientificidade aquilo que foi intuído como sabedoria popular. Existe, porém, um problema. Os padrões existem a priori, contudo nós não os conhecemos desse modo, não basta consultar a razão pura para os descobrir. Há que investigar naquilo que se noticia o padrão imutável a que obedece. É por isso que estamos no domínio da ciência e não da filosofia. Perguntar-se-á a razão que levou este narrador a descobrir tão importante campo epistemológico no dia de hoje, 3 de Agosto. Uma razão meteorológica. Ia sair, mas estava a chover – estou a dizer a verdade. Como não tinha nada para fazer, pus-me a criar uma ciência para ajudar a humanidade a não abrir a boca de espanto perante acontecimentos que surgem como novidades. Não, eles não são mais do que a repetição de padrões eternos. Também podia ter feito a barba, talvez fosse esteticamente mais relevante, mas perderia uma oportunidade para dar mais um contributo benevolente e pro bono para o conhecimento e, como consequência, para o desenvolvimento da espécie a que me fizeram pertencer.
domingo, 2 de agosto de 2026
Na falta de ocorrências
Um poema, Vazio Interior, do alemão Durs Grünbein, começa com um terceto irónico: Sempre que nada me ocorre, escrevo uma fuga, / Diz Giuseppe Verdi. E o que faz Tchaikovsky? / Eu penso nos meus honorários. Assim se acumulam notas. A estrofe seguinte, uma oitava, sem rima nem metro, no primeiro verso, expõe o que faz o poeta, se nada lhe ocorre: Sempre que a mim nada me ocorre, lavo a loiça. Não é apenas a Verdi, a Tchaikovsy e a Grünbein que nada ocorre. Conheço uma mulher, das mais interessantes que conheci, que, ao sofrer uma insónia e nada lhe ocorrer para a derrotar, levanta-se e põe-se a passar a ferro, mesmo que tenha quem o faça por ela. Ora, também a mim, pobre narrador, há momentos, quase todos, em que nada me ocorre. Não sei escrever fugas, nem o meu pensamento se inclina para os honorários. Para a loiça, existe uma máquina, com vários programas, que a lavará melhor do que eu o faria. E quanto a passar a ferro, que isto me seja perdoado, não tenho inclinação para o trabalho doméstico. Fico assim desarmado perante essas horas sem fim em que nada me ocorre. Minto, como é habitual. Quando nada me ocorre, escrevo um texto que publico aqui. Um post, por lamentável que seja, é a minha fuga, a meditação sobre os meus honorários, a maneira como lavo a loiça, ou a roupa que passo nas horas em que nada me ocorre. Não me redime, mas evita-me esses trabalhos e pensamentos dolorosos para os quais a herança genética não me programou.
sábado, 1 de agosto de 2026
Primeiro dia de Inverno
Saí manhã cedo para caminhar. No percurso, lembraram-me de um velho ditado desta zona: primeiro de Agosto, primeiro de Inverno. É possível que se esteja perante uma hipérbole, mas convém não esquecer que a hipérbole é uma lente de aumentar. Exagera a realidade para mostrar aquilo que ela é. E nesse momento parecia estar em pleno Inverno. Uma atmosfera sombria e uma temperatura que não era a de Verão. Encolhi os ombros e pensei que não seria o Inverno propriamente dito, mas antes a minha estação preferida, o Outono. E foi sob uma atmosfera outonal que fiz o exercício. Em Agosto, virão dias estivais, mas o Outono há-de estar não poucas vezes presente. Haverá mesmo um ou outro dia vivaldiano, em que as quatro estações se sucederão em poucas horas. Não haverá, claro, dias de neve, nem frio avassalador, mas isso é coisa que nunca existe por estes sítios. Começarão, porém, a cair as primeiras folhas, numa anunciação do Outono, estação que mereceria uma Sagração como Igor Stravinsky compôs para a Primavera.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Afirmação de Si
Há dias, fui trocar Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, recebido como presente. Já existia um exemplar na biblioteca cá de casa. A escolha foram dois romances que têm em comum serem criados por mulheres e de pertencerem a literaturas não ocidentais. A escolha recaiu em A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, e As Noites Frias da Infância, da turca Tezer Özlü. A primeira reflexão que, então me ocorreu, quando tomei consciência da nacionalidade das autoras, foi sobre o poder que o romance moderno, uma criação ocidental, tem para penetrar em muitas outras culturas. Isso mostra que esta espécie literária responde a uma necessidade universal da humanidade. Essa necessidade não é apenas de narrar histórias, mas de dar uma atenção especial à agência autónoma dos indivíduos, de os singularizar. Podemo-nos aventurar na especulação e afirmar que, apesar de muitas culturas serem ferozmente comunitárias e, de certo modo, inimigas da afirmação da subjectividade individual, os seres humanos trazem em si uma inclinação para se afirmarem na sua diferença em relação aos outros e ao todo. O romance moderno, nascido com o Quixote, de Miguel Cervantes, é uma resposta artística a essa inclinação para a valorização da subjectividade. Não poucas culturas tentam sufocar, com êxito maior ou menor, a afirmação de um eu autónomo. Contudo, a existência de uma literatura romanesca nas mais diversas áreas culturais manifesta que a ânsia de afirmação da subjectividade não constitui uma peculiaridade ocidental, mas antes um desejo universal, cuja consciência os ocidentais, por influência do cristianismo, terão sido os primeiros a explicitar.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Mapas e territórios
Tenho, neste dias de Julho, saltitado de romance em romance, mas devo ter encontrado um poiso seguro. Por poiso seguro quero dizer um romance que me apetece ler até ao fim. Trata-se de O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. Foi este que venceu a corrida para alcançar a meta da minha atenção. O título é, já por si, um elemento que mereceu o meu favor. Aparentemente, teríamos uma relação entre a representação, o mapa, e a coisa representada, o território. Contudo, a ideia principal, ainda por confirmar, estará num outro tipo de relação. O mapa, o melhor será dizer os mapas. Estes são as produções humanas e estas estão fadadas a tornarem-se representações de territórios que já não existem. Esta ideia remete de imediato para uma peculiaridade da vida contemporânea: tudo o que se faz traz em si a marca da sua obsolescência. Não são apenas os dispositivos que usamos, mas também a arte que praticamos, as políticas que são levadas a efeito, as crenças que abraçamos. Todos eles são mapas para uma realidade que já deixou de existir. Esta ideia, todavia, já estava presente em Hegel. Não se referia a todas as actividades humanas, mas àquela que estaria no cume dessas actividades, a filosofia. A frase, uma das mais célebres frases do filósofo alemão, diz: A ave de Minerva só levanta o voo ao romper do crepúsculo. A ave de Minerva é a filosofia. Esta só conhece aquilo que foi. É um saber crepuscular. Dito de outra maneira, a filosofia é um mapa de um território que já não existe. A ideia mais forte, tanto do romance de Houellebecq como do pensamento hegeliano, reside num outro lugar. Não temos qualquer mapa nem para o presente nem para o futuro. A vida não é uma representação, embora estejamos condenados a construir mapas para apaziguar em nós o medo que ela nos infunde.
quarta-feira, 29 de julho de 2026
O sonho dos guerreiros
Encontramos em diversas sociedades pré-modernas quatro grandes orientações de vida humana. A mais elevada é a que conduz à busca da verdade. A segunda está orientada para a glória. A terceira centra-se na riqueza. Por fim, a mais baixa tem por objectivo os prazeres sensoriais. É ainda esta divisão que de alguma forma se reflecte na hedonismo de Stuart Mill, ao dividir os prazeres em superiores e inferiores, sendo estes os que homens e animais não racionais partilham. A glória é o objectivo perseguido pelo guerreiro, que a atinge através da coragem. Foi ela, durante muito tempo, o motor da história. Nos diários de viagem do grande poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694), encontramos a revelação da inutilidade dessa busca. Numa entrada desses diários, o poeta escreve no início: A glória de três gerações de Fujiwara desvaneceu-se como o sonho de uma noite. Os restos da entrada principal da mansão estão a um li de distância do conjunto das ruínas. A residência de Hidehira converteu-se num matagal e só resta em pé o monte Kinkei. A glória militar não passa de um devaneio onírico. A sua grandeza transforma-se num matagal. Bashô cita o poeta Du Fu: países são arrasados / os rios e as montanhas permanecem… / entre as ruínas do castelo / a primavera renasce / e reverdecem as ervas. Tanto a prosa de Bashô como a poesia de Du Fu contrapõem a efemeridade da glória à permanência da natureza. É provável que ambos os poetas contrapusessem a vida que busca a sabedoria e a vida orientada para a glória. O mundo, porém, transformou-se, a glória militar soçobrou perante a busca da riqueza. A queda da glória não é um facto consumado. Durante o século XX, a glória guerreira foi mobilizada para levar a cabo grandes e inúteis devastações. Contudo, o que estava em causa não era a velha glória guerreira, mas interesses e pulsões mais baixas. Assistimos neste momento, com o primeiro quartel do XXI consumado, a um retorno ao espírito guerreiro e a uma cultura da glória. É uma farsa, mas esta não deixa de ser real. Um desejo de guerra e uma de busca da glória começam a desenhar-se nas pulsões de muitos adolescentes e jovens do sexo masculino. Fariam bem em meditar o haiku que Bashô escreveu perante a ruína da glória de três gerações de Fujiwara: ervas do estio / eis tudo o que resta / do sonho dos guerreiros.
terça-feira, 28 de julho de 2026
Parte relaxada
Uma revolta lombar, ouvi falar em lombalgia, decidiu levantar-se contra mim. Sem piedade. Dos colírios usados, consta um relaxante muscular. Resultado: imagino que os músculos se relaxem, pois todo o resto está relaxado. Em primeiro lugar o cérebro. A velocidade das sinapses reduziu-se assustadoramente, de tal maneira que estão proibidas de entrar na auto-estrada, mesmo que seja para andar só na faixa da direita. Ligar duas ideias é um esforço desmedido, e se escrevo o que estou a escrever é porque os efeitos do medicamento começam a moderar-se, depois de ter passado algumas horas numa sesta, onde não tive direito a sonhos, devaneios ou rêveries. A minha vontade é levar os responsáveis a tribunal, mas temo que o processo se arraste tanto tempo que, no momento do julgamento, nem lembre do que aconteceu. Uma parte do corpo que pede relaxantes só pode ser, apesar das aparências em contrário, uma parte relaxada.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Um elástico
Tenho de me despachar, penso ao sentar-me para escrever. Lisboa espera-me e não me apetece levar a parafernália que utilizo para a escrita destes textos. Só escrevo em computador. Um portátil, mas ligado a um monitor de 24 polegadas. Manipulo o tamanho do texto conforme me apetece, mas é desconfortável para levar em viagem. Ia para dizer uma mentira. Ia descrever o terror que me assola se o texto sai com algum erro, mas não sinto qualquer terror, apenas um leve incómodo se descubro alguma coisa que não devia estar lá. Após a escrita, faço uma revisão, mas demasiado apressada e sem a distância suficiente para não ler o que não está lá. Por vezes, as frases saem desagradáveis, constato-o, se leio o texto passado algum tempo. Paciência. Também não sou todos os dias uma pessoa agradável. Será que serei em algum? Isso não vem ao caso. Estou a arrastar o texto e não tarda estão-me a perguntar se demoro muito. Claro que não, não demoro muito, respondo sempre, mas vou demorando, esticando o tempo, como se ele fosse um elástico. Como um elástico, ele solta-se das mãos e atinge-me na cara. São coisas que acontecem. Tenho de me despachar, mesmo. O tempo já esticou o que tinha de esticar.
domingo, 26 de julho de 2026
As coisas belas
Está em exibição o filme Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida, de Edgar Reitz. Do realizador, apenas vi Heimat, mas, as três séries (na verdade um único filme), e os dois filmes realizados posteriormente, mas anteriores, no tempo da narrativa, às séries, contabilizam dezenas de horas. Ainda não vi o filme e não sei se tenho espaço temporal para o ver nestes dias. As reacções dos espectadores – aquelas que surgem como comentário num jornal – são absolutamente extremadas. Uma pessegada ou de fugir a sete pés, por um lado, e belíssimo filme ou um filme tão denso e intenso. Esta dissensão entre os espectadores não é uma questão de gosto. Ela nasce da equivocidade da palavra cinema. Esta designa tanto o entretenimento industrial, mais ou menos conseguido, como uma das artes contemporâneas, com a respectiva complexidade e exigência de uma educação quase formal. Os espectadores disponíveis para os dois ramos do cinema não são, na maioria dos casos, os mesmos. Uns procuram a insustentável leveza do ser, enquanto outros anseiam por qualquer coisa que sustente e confirme o mundo em que vivem. Quando isso não acontece, a decepção é grande. Não compreendem, nem compreenderão, a frase platónica: as coisas belas são difíceis. Insustentavelmente difíceis, acrescento eu.
Actualização: Afinal, o filme já não está em exibição. Sou um anacrónico. Além, disso, vejo mal ou não vejo. Terá chegado aos ecrãs nacionais em finais de Maio, mas já se evaporou.
sábado, 25 de julho de 2026
Efeitos do tempo
Li há pouco um poema de Georg Trakl, Primavera da Alma I, uma composição com cinco quadras. Depois de ler e de reler, fiquei a pensar no mundo que suportava aquele poema, pois todos os poemas se enraízam num mundo. Ora, esse mundo acabou. Não voltará. Também não será possível escrever o que está na quarta quadra: Renascem o pão e o vinho, / É mágico o som do órgão; / E envolve a cruz da Paixão / Um misterioso brilho. Tudo isso se tornou desconhecido, pois o enraizamento dessas palavras foi desfeito pelo passar do tempo. Sim, podemos culpar o progresso técnico, mas isso será um desvario de uma mente que se perdeu no caminho. O progresso técnico é apenas um agente do tempo, ao qual não faltam funcionários. Executa ordens, não as concebe, não as dá. Ora, pensamos que somos nós, seres humanos, que transformamos o mundo. Isso, porém, é uma ilusão. É o tempo. É habitado por uma inquietação tal que não apenas está sempre projectado para o amanhã, como sente necessidade de desfazer o que estava feito. Por isso, não podemos falar como falavam os nossos bisavós, nem avós, tão pouco como os nossos pais. E se alguém espera que filhos e netos falem como ele fala, então vive numa perfeita ilusão. O tempo torna estranho o idioma que parece o mesmo e é designado da mesma maneira. Não vivemos nem no mundo dos nossos pais nem dos nosso filhos, por isso falamos línguas diferentes de ambos. Não damos por isso, porque transportamos sempre connosco um tradutor automático. Não é infalível. Daí haver, não poucas vezes, entre pais e filhos, tal incompreensão que parecem estrangeiros uns aos outros. Também os tradutores automáticos sofrem os efeitos do tempo.
sexta-feira, 24 de julho de 2026
O dia de hoje
No dia de hoje, mas de 1833, o duque da Terceira, ao comando das tropas liberais, fez a sua entrada triunfal em Lisboa, depois de derrotar as tropas miguelistas, na Cova da Piedade. Também a 24 de Julho, mas agora de 1921, nasceu o tenor italiano Giuseppe Di Stefano. Aliás, recebi a informação logo de manhã, quando no carro ia escutando a Antena 2. Contudo, há que pôr as coisas no seu lugar. O primeiro Di Stefano de que tomei conhecimento chamava-se Alfredo e tinha um acento no e, o que fazia dele Di Stéfano. Era argentino. Pertence à minha memória futebolística, como um dos jogadores míticos do grande Real Madrid, que antes dele chegar da Argentina não era assim tão grande. Claro que não me lembro dele jogar, mas do nome. Ele, diga-se, não devia fazer parte deste texto, pois nasceu a 4 de Julho e não a 24, mas a quase homonímia com o tenor italiano trouxe-o até aqui, e não vejo razão para o expulsar. Podemos discutir quem terá sido maior, se o italiano na Ópera, se o argentino no futebol. Vivemos num mundo dominado pelo totalitarismo da avaliação, onde existem métricas para tudo. Para tudo, mas não para o essencial, como é saber qual dos dois foi o maior no seu campo. Seja como for, tendo em conta o dia, a minha preferência vai para o Duque da Terceira, embora este tenha nascido a 18 de Março. Parece ser uma opção política, coisa que me está interdita. Contudo, um acontecimento político com quase 200 anos não é um acontecimento político, mas um fenómeno natural. Por exemplo, a Revolução Francesa, na sua época e durante muito tempo, foi considerada um fenómeno político, e ainda há quem assim pense. São pessoas anacrónicas, submersas pelas paixões do passado. A Revolução Francesa, vista daqui, ano de 2026, não se distingue da passagem de um cometa, da erupção de um vulcão, de um eclipse do Sol ou de um terramoto seguido de tsunami. Tudo fenómenos naturais. Também o 24 de Julho se tornou um fenómeno natural, um pequeno vendaval, em memória do qual se deu o nome a uma avenida de Lisboa. Devia procurar uma ópera com o Di Stefano e a Maria Callas, a Lucia di Lammermoor, por exemplo. Pensando melhor, vou procurar no YouTube o jogo da final da Taça dos Campeões Europeus de 1961/62, em que o Benfica de Eusébio ganhou 5-3 ao Real Madrid de Di Stéfano. Uma escavação arqueológica.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Um desacerto
Acabei de passar os olhos pela imprensa diária. Os olhos, pobres deles, bocejaram e disseram-me: não me podes oferecer novidades realmente novas? Contemplei-os e respondi-lhe: não há nada de novo sob o Sol. Eles encolheram os ombros e retrucaram: então por que nos submetes a esta tortura diária de ver as novidades que nunca são novas. Porque, respondi-lhes, não suportariam novidades efectivamente novas. Nem eles, nem eu, mas esta confissão foi omitida. Devo manter algum prestígio perante os olhos, mesmo que sejam os meus. Tenho uma tarefa para realizar com urgência, mas não tenho paciência para o que é urgente, nem vontade de realizar o que devo realizar. A vida é um desacerto. Quando tenho paciência para o urgente, não existem urgências. Quando tenho vontade de realizar qualquer coisa, não há que fazer. Não sei se já sonharam semiacordados. Depois de almoço, acontece-me não poucas vezes. O sonho repete-se, não sem prazer, confesso. Sonho com uma certa mulher, não como ela é agora, mas como seria neste momento se tivesse dois terços da idade que tem, sendo quem é, mantendo o mesmo nome, a mesma identidade, o mesmo tom de voz, o mesmo olhar. Ao escrever dois terços constato que o sonho terá uma natureza matemática. Sim, é um sonho matemático, no qual os meus olhos se confrontam com uma novidade que nunca viram, mas que desejam ver e, de certo modo, vêem, através do expediente de um número fraccionário. O que me atormenta, porém, é não saber se aquilo que eles vêem – sim, um corpo desejável e, por que não dizê-lo, desejado – é visto quando eles estão acordados ou quanto estão adormecidos. Estes estados intermédios mergulham-me numa penumbra da qual não sei como sair, logo eu que sou um adepto de ideias claras e distintas. Não sei, por isso, a quem devo repreender. Se aos meus olhos, se aos meus sonhos semiacordados. A mim não, por certo, pois eu sou um mero paciente: sofro os desmandos. Ora dos meus sentidos, ora dos meus estados oníricos. Não tenho mão neles. Caso tivesse, punha-os na ordem. Vou ler o jornal ou, talvez, sonhar semiacordado, mesmo que os dois terços sejam eliminados e o objecto do sonho se apresente com a idade que tem, na sua mais pura unidade.
quarta-feira, 22 de julho de 2026
O declínio de um resistente
Um almoço de sardinhas acompanhado, claro, por um tinto. O resultado foi uma sesta, mas uma sesta a sério, deitado na cama, a ressonar, imagino. Não é que nos outros dias o sono, depois de almoço, não me tente, e eu não me deixe cair na tentação. Mas não chego ao que cheguei hoje. Sento-me, de preferência à frente do computador, e vou adormecendo e acordando. Isto recordou-me a longínqua infância e o pesadelo das tarde de Verão. Lá por casa, entendia-se que dormir a sesta era uma coisa muito saudável, o que tornou a sesta um imperativo. Podia ser, de facto, um imperativo, mas era, para mim, uma tortura. Não dormia, e o tempo passava tão devagar que cada minuto parecia-me uma hora. Depois, o imperativo foi-se tornando em facultativo, o que trouxe rapidamente a abolição dessa escravatura ao que é saudável, à malfadada sesta. Nisto, vejo-o agora, havia em mim a resistência portuguesa à espanholização dos costumes. Sestas só para lá da fronteira. Em Elvas devem ser proibidas, em Badajoz, obrigatórias. Hoje, sinto-me como um velho resistente à ditadura castelhana da sesta, militante que, sem ceder nos princípios inimigos da sesta, cede na prática à nefasta influência dos hábitos daqueles que vivem do outro lado da fronteira. E enquanto adormeço depois do almoço, vou sussurrando: Abaixo a sesta! Abaixo Castela!
terça-feira, 21 de julho de 2026
A palavra perdida
Alguns dos últimos textos têm sido excessivamente grandes. Preocupa-me esta tendência para ser prolixo. A preocupação deve-se à crença – em mim, inabalável – de que quanto menos se tem para dizer, mais se escreve. É o que se passa comigo. O meu ideal secreto – mas que hoje partilho aqui – é ir reduzindo os textos cada vez mais. Isso coloca-me um problema. Se quanto menos se tem para dizer, mais se escreve, será verdade que quanto menos se escreve, mais se tem para dizer? Aceitemos esta possibilidade como uma verdade. Qual será o limiar textual mínimo admissível para comunicar grandes coisas? O silêncio é o principal candidato à modalidade de expressão com o máximo conteúdo. Aquele que nada diz é o que mais diz. Esta queda no paradoxo não me parece, contudo, muito decente. É mesmo uma questão de decência e não de lógica evitar o paradoxo. Podemos encurtar os textos até que subsista uma única frase, plena de conteúdo. No entanto – esta é a minha proposta para hoje, para amanhã encontrarei outra – a comunicação com o máximo de conteúdo deverá ser apenas uma palavra, uma palavra plena. Ora, por que razão se escreve e se fala tanto? Porque essa palavra se perdeu, ninguém sabe dela. Por isso, escreve-se e fala-se sem parar, como se se estivesse num ritual mágico que, a certa altura, nos faria descobrir a palavra perdida, aquela que sendo proferida, nos indicava o caminho para estarmos quietos e calados. Também eu não a encontrei, por isso vou escrevendo coisas mais ou menos idiotas, na expectativa de que ela – a palavra perdida – me caia no colo, eu a peça em casamento, ela aceite e sejamos felizes para sempre, na quietude do silêncio de um amor eterno. Ite missa est, diria então por não saber estar calado.