sábado, 31 de outubro de 2026

Transição

Despede-te Outubro. Levas contigo parte maior da estação. Vais preso ao Estio, com dias de calor, onde os mortais adormecem nas tardes de sábado. Não sei se te posso fazer entrar num poema, Folhas d’Outono, de Osório de Castro, o simbolista amigo de outro simbolista, Camilo Pessanha. Serras! … A uma e uma vão / Caindo as folhas gondoladas / Das grandes árvores doiradas. / Sem ruído acamam-se no chão. Por aqui os liquidâmbares estão quase despidos, mas as folhas das tílias e das acácias ainda resistem ao imperativo da gravidade. O mundo deixa-te partir como te deixou chegar. Não passas de um encolher de ombros entre um Setembro de que ninguém já se lembra e um Novembro que, depois dos Santos e dos Fiéis Defuntos, talvez arrisque um Verão de S. Martinho, num desejo de reconhecimento que não terá. Hoje, por um acidente da memória, tive de ir a uma grande superfície comercial. As empregadas, não todas, mas muitas, mascaravam-se em honra do Halloween. Olhei para elas e não soube o que lhes dizer. Quem lhes recomendou aquela figura? Pobres bruxas perdidas no tempo. Ao menos que se preparassem para amanhã irem, de porta em porta, pedir pão por Deus.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Ao crepúsculo

O crepúsculo estende-se sobre a cidade. Cinzento, sombrio, como se nele carregasse o peso de um luto ancestral. A iluminação pública já invadiu o território, pronta para acolher a noite. Um cão ladra na praceta aqui em baixo, enquanto o bosque da escola vizinha se transforma numa massa negra. Parece que chegou a hora do silêncio. Uma ilusão. Carros e pessoas rompem os muros da escuridão e correm pelas ruas como se tivessem um destino. Não têm. Aliás, são poucos os que o têm. Os outros, quando muito, terão objectivos, desejos, razões. E haverá aqueles a que nada os move. Não é que não se movimentem. Movimentam, mas não o fazem nem por desejo nem por qualquer razão. São levados pela mecânica do corpo, pelos impulsos da biologia. São tão inocentes quanto a Lua, o Sol, um animal selvagem. Podemos organizar uma taxionomia da humanidade. Os que se movem naturalmente, os que se movem por desejos e razões e os que se movem pelo destino. Apesar da diferença, todos partilham uma característica. Nenhum escolheu o grupo a que pertence. Aconteceu-lhe, como acontece o crepúsculo e, depois dele, a noite.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Um jogo de máscaras

Romano Guardini, um dos mais interessantes teólogos alemães do século XX, escreveu, no início do seu O Mundo Religioso de Dostoievski, o seguinte: A palavra «povo», quando utilizada por Dostoievski, exprime a essência de toda a verdade, profundidade e princípios humanos. O povo é, simultaneamente, o homem numa posição indefesa, atingido pelo destino, explorado por outros homens mais rápidos e hábeis, oprimido pelos fortes. Hoje, porém, nem Dostoievski conseguiria ver no «povo» aquilo que via no século XIX. Não é que não existam homens em posição indefesa, homens atingidos duramente pelo destino, explorados e oprimidos por outros homens. Contudo, o desenvolvimento técnico e comunicacional, apesar de não libertar o «povo», mata nele a capacidade para exprimir qualquer coisa de autêntico. Não está nele nem a essência da verdade, nem a profundidade que a terra lhe dava, nem os princípios humanos que o tornavam mais próximo daquilo que é eterno. E isto é o pior que pode ter acontecido à humanidade, pois não se tratou de uma transferência dessas virtudes encarnadas pelo «povo, segundo Dostoievski, para outras classes sociais. Aconteceu que esse reservatório último de humanidade foi, primeiramente, corrompido e, depois, destruído. Nenhuma verdade subsiste. Toda a autenticidade foi tomada de assalto e aquilo que se vê é apenas um regime em que todos usam máscaras. Umas mais ricas, outras mais pobres.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Uma memória infiel

Um artigo sobre Tomasi de Lampedusa lembrou-me não apenas o seu grande romance, como o filme, feito a partir dele, por Luchino Visconti, O Leopardo. Apesar de o ter visto várias vezes, cometo sempre um erro quando penso sobre o início e o fim do filme. Começa com o rezar do terço pela família do príncipe. Até aqui não há erro. Contudo, quando considero o final, a minha memória falsifica-o sempre. Penso no grande baile aristocrático, ou de compromisso aristocrático-burguês. Recordo o momento em que Don Fabrizio Salina dança com Angélica Sedara, a noiva burguesa do seu sobrinho predilecto. E contudo, o filme não acaba aí. O príncipe percorre as ruas desertas e poeirentas. A certa altura, depara com um sacerdote, e respectivo acólito, que se dirigem a uma casa vizinha para administrar a extrema-unção a um moribundo. O que me espanta é a selectividade da minha memória. Prefere a chegada de um mundo novo, onde, por instantes, os Salinas e os Sedara se misturam, à melancólica meditação de Visconti. A cena mostra-nos que não apenas o mundo aristocrático dos Salina está moribundo, mas também que o novo mundo, agora começado, está já marcado pela morte futura, precisando apenas que lhe seja levado o viático e dada a extrema-unção. O que é novo contém já a sua morte, mas a memória parece preferir a ilusão da eternidade que habita tudo o que começa.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Sem pulsões

A aplicação que me controla o sono teve a amabilidade de me informar que foi adicionada uma sesta. Fiquei deslumbrado. Não pela informação, mas pela minha regularidade. Dormi desde as 16:28 até às 17:28. Uma hora exacta. O enlevo nasce da precisão da inconsciência. Se me tivesse proposto a dormir uma hora, haveria de dormir 54 minutos ou mesmo 66, embora o mais certo fosse não dormir. Na sequência de uma digestão relativamente pesada, e após ter caminhado meia hora e recorrido a S. Gurosan, sentei-me à secretária e adormeci sem dar por isso. Que lição posso tirar? O meu inconsciente é muito mais preciso do que o meu consciente. Isto colide com a teoria do velho Sigmund Freud. Segundo ele, o inconsciente pulsional foge às regras da consciência clara. Não é dado a exactidões apolíneas, mas a desmandos dionisíacos. Agora, desconfio que não tenho pulsões no infra-eu, mas apenas regras rígidas e amantes da exactidão. Onde os outros têm a desrazão, tenho eu a razão. Uma razão pura e geométrica. Com tudo isto, anoiteceu. Nem dei pelo crepúsculo. O que fará sentido, pois nele há sempre qualquer coisa de dionisíaco.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Desperdício

Na caixa do correio estava a revista Electra, da qual sou assinante há vários anos. Chegado à minha cadeira do escritório, abro-a ao acaso. Um ensaio de um matemático, Étienne Ghys,  O caos: história de um mal entendido. Como não é a hora mais favorável para ler o texto, percorro-o com os olhos e paro num ponto que diz: O caos matemático não é ausência de leis. É um comportamento produzido por leis perfeitamente deterministas, cuja complexidade ultrapassa rapidamente a nossa capacidade de previsão. A desordem não está nas equações. Está no nosso olhar. Não me preocupa que isso seja assim na natureza. Aceito, sem protestar, a ideia de Edward Lorenz: O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode desencadear um tornado no Texas. Que isso aconteça segundo leis matemáticas rigidamente deterministas, não me tira o sono. Contudo, se aplicar essa ideia às minhas escolhas, às decisões que tomo e às opções que faço, fico perturbado. Eu que pensava que tudo isso era fruto da minha liberdade, que não poderia ser previsto por qualquer análise das cadeias de causalidade, afinal parece resultar de leis matemáticas perfeitamente deterministas. O caso de estar a escrever este texto, coisa que até há pouco me pareceria resultado de uma decisão arbitrária, sem qualquer rígida determinação, afinal é explicável a priori, para quem tenha uma capacidade de cálculo digna do demónio de Laplace. Este texto está inscrito na ordem das coisas que se instalaram com o Big-Bang, ou talvez mesmo antes, caso haja um antes desse acontecimento. A grande questão que se coloca é a seguinte: foi preciso andar tanto para chegar a isto? Ao menos, sempre podia ser determinado a escrever O Processo, o Ulisses ou qualquer outra coisa  que valha a pena. Posso estar de acordo com Étienne Ghys, mas todos devem reconhecer que, apesar da rígida regulação matemática, há muito desperdício na natureza.

domingo, 25 de outubro de 2026

Assunto

Alturas houve que escrevia todos os dias neste blogue. Agora, entrego-me a longas férias. Será uma desculpa prática para a dura realidade de ser um narrador sem assunto para narrar. Há duas maneiras de encontrar assunto. Uma é pesquisá-lo nas coisas que acontecem. Outra, procurar dentro da imaginação, onde, por milagre inexplicável, o assunto emerge como se fosse uma realidade que o mundo espera. E são estas duas fontes que me inibem. O que acontece passa sempre tão depressa que não consigo apanhá-lo, pois, mal dou por isso, já está outra coisa a acontecer. Esta volubilidade dos acontecimentos inibe-me e, além disso, irrita-me. Estou em maré de confidências. Já expus a minha natureza inibida e irritável. Nada disto seria grave, se a imaginação com que fui dotado fosse terreno propício para o milagre da multiplicação dos assuntos. Não é. Por vezes, sento-me, encaro a minha imaginação de frente, olhos nos olhos. E o que vejo? O problema está aí. Apesar de não ver mal, quando olho para a minha imaginação não vejo nada. Nada significa, neste caso, nada. Penso, então, que ninguém de bom senso se deve culpar por não lhe sair o Euromilhões. Logo, também seria estulto da minha parte sentir culpa por a lotaria genética não me ter dado o grande prémio de nascer com uma imaginação. Retomando o fio à meada – não tenho imaginação, mas sei muitos ditados e expressões populares, sou um adepto do senso-comum –, voltemos ao facto de, em tempos, escrever todos os dias e, agora, estar sempre pronto para fazer umas férias generosas. Talvez a solução seja deixar de escrever todos os dias e passar a fazê-lo todas as noites. É possível que, depois do crepúsculo vespertino, os assuntos comecem a borbulhar em mim. Serão assuntos borbulha. Convém, todavia, não coçar, pois podem infectar. E de infecções estamos todos fartos.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Digressões

Hoje é uma terça-feira que mais parece uma segunda. O feriado de ontem, apesar de todos os meus dias serem feriados, interferiu na percepção do tempo. Hoje comecei o dia com uma sessão de Pilates, coisa que já não fazia há mais de três meses. O resultado não foi brilhante. Aliás, a minha situação já não era brilhante antes de lá chegar. A cervical e a lombar, e mais nem sei bem o quê que uma pessoa tem para se inflamar. Do ponto de vista meteorológico, um assunto que me ocupa todos os dias, a manhã teve um início promissor. Grandes trovões e aguaceiros fortes. Contudo, com o passar das horas, foi-se desinflamando até chegar a uma luz esbranquiçada e anémica, enquanto, no céu, algumas nuvens, como barcaças escuras, sulcam aquele mar etéreo. A vida escolar parece estar já bem lançada. Na praceta aqui em baixo, bandos de adolescentes algazarram, antes de entrarem para as lições no instituto de línguas. Também eu precisava de frequentar esse instituto, caso houvesse cursos para gente da minha idade e de línguas de que nunca ouvi falar. Aprender aquelas de cuja existência já fomos informados é tempo perdido. O que desejava era um nicho de mercado linguístico, pois que originalidade tinha aprender chinês, árabe ou norueguês? Podia estudar assamês, divehi ou mesmo shona ou tatar. Isso garantir-me-ia uma singularidade bastante singular e um mercado para o qual ninguém estaria habilitado. A verdade, porém, é que o instituto de línguas não consegue acompanhar a iniciativa privada e concentra-se em ensinar aquilo que toda a gente quer aprender, o inglês. Sinto-me frustrado, mas não se pode fazer tudo aquilo que se quer.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Projecções

Está um 5 de Outubro triste. A tristeza nasce da hesitação do dia em se apresentar ou chuvoso ou de um sol radiante. E toda a realidade se deixou contaminar por esse dilema. Também eu faço parte da realidade e também eu fui contagiado pela incerteza. Depois de escrever tudo isto, parei e, enquanto olhava para a rua, pensei que não era o dia que que estava triste e hesitante, mas eu. Não tanto triste, pois não sou dado a estados de alma. A hesitação, todavia, corrói-me a mente, o corpo e tudo o que se possa imaginar. Portanto, o 5 de Outubro não está triste nem hesitante. Sou eu, como uma pequena divindade, que projecto sobre o dia aquilo que está em mim. No fundo, somos todos como aquelas máquinas que, nos cinemas, projectavam os filmes no grande ecrã. Cada um projecta o seu filme e a realidade que percebemos não é outra senão aquela que projectamos. Dormi mal, de manhã tive um compromisso que me levou algumas horas, depois de almoço adormeci até ficar levemente indisposto. Não admira que o que escrevo não seja mais do que a projecção do mais puro solipsismo. Amanhã será outro dia. Como eu gosto de lugares-comuns.

sábado, 3 de outubro de 2026

Sobre o Paraíso

Num dos romances de Nikos Kazantzaki, Cristo recrucificado, na segunda página surge uma definição de paraíso: - O Paraíso deve ser parecido com isto! – exclama Charalambos, o bedel -, um sol doce, uma chuva leve, limoeiros em flor, cachimbadas e uma conversa sem fim até à consumação dos tempo. A frase é notável não tanto pelo que diz, mas por aquilo que insinua. Onde está o prazer de cada um, aí está o seu paraíso. O que não deixa de ser perturbador. A perturbação não nasce apenas da multiplicação ilimitada de paraísos, mas na possibilidade de haver paraísos que são ao mesmo tempo infernos. Se o prazer de alguém está em violentar outrem, haverá aí um paraíso e um inferno. Será por isso, podemos imaginar, que o bedel está errado. O paraíso, o verdadeiro paraíso, caso exista, não pode estar ligado ao que nos dá prazer. Não apenas por causa da possibilidade infernal detectada, mas ainda porque, tendo em conta a singularidade dos prazeres – cada um tem os seus –, o paraíso seria um lugar de profunda solidão, pois cada um habitaria um paraíso próprio. Um exercício solipsista. O mais plausível é pensar que esse possível paraíso será um lugar onde todos os prazeres que cultivamos neste mundo são abolidos. Isso resolveria os vários problemas trazidos pelas palavras de Charalambos. O verdadeiro paraíso seria, então, aquele lugar onde não encontraríamos nenhum dos nosso prazeres actuais. Poderá ser um lugar onde existam prazeres de uma outra qualidade, que serão partilhados universalmente. O mais natural, porém, é que seja um lugar onde a própria ideia de prazer não faça qualquer sentido. Há para esta hipótese um bom argumento. Na nossa experiência do mundo, existe uma relação íntima entre prazer e dor. Ora, se um paraíso autêntico é desprovido de dor, também será, por certo, de prazer. Nesse paraíso, o utilitarismo, nas versões mais radicais ou mais moderadas, não tem lugar. Esta frase é enigmática, mas não há nada melhor do que acabar com um enigma, facilmente decifrável, um texto destituído  qualquer de bom-senso.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Simplificar, simplificar

Vejo que foi emitido um aviso de trovoada para aqui. Depois, sinto-me decepcionado. O perigo é meramente moderado. Não consigo, porém, perceber o sentido da informação. A moderação deve-se à possibilidade de ocorrência ou não da trovoada ou à intensidade desta? No primeiro caso, somos informados de que pode ocorrer uma trovoada, mas não é certo que ocorra. No segundo, ficamos a saber que ocorrerá necessariamente uma trovoada, mas que a esta faltará ímpeto, energia, arrebatamento e vigor. Decido investigar o assunto. Descubro, porém, que o aviso de trovoada emitido agora diz respeito ao dia de amanhã. Sinto-me ludibriado. Só amanhã, entre as 13 e as 22 horas é que poderá ocorrer a trovoada. É amarelo o alerta emitido. A situação seria mais grave caso fosse laranja e, pior, vermelho. O verde, embora não surja como um alerta, informa-nos da ausência de risco. Contemplo esta escala e sinto que os fabricantes de escalas possuem uma acentuada inclinação para a discriminação. E um alerta azul? E alertas pretos, brancos, castanhos, roxos, lilases, rosas, por que razão não entraram na escala? Para simplificar a escala e torná-la perceptível, oiço dizer com jactância. Isso recordou-me de imediato a simplificação ortográfica de 1911. Os portugueses não conseguiriam perceber coisas complicadas com um “ph” ser pronunciado como “f”. Como poderiam eles, pobrezinhos, saber que um abysmo é um abismo. Perante symptoma, recusar-se-iam, sintomaticamente, a usar a língua portuguesa. Não apenas a escrita, por incompreensível, como a oral, por retaliação. Somos um povo que vive de simplificação em simplificação, para evitar que tenha de exercitar o cérebro. Seja como for, não consigo perceber por que razão o amarelo e a moderação estão ligados. E que mal terá feito o vermelho para indicar o pior de todos os cenários. Por mim um cenário catastrófico mereceria um alerta negro. O vermelho seria emitido para uma situação que contivesse risco e ao mesmo tempo gerasse entusiasmo. Os decisores – uma palavra que faz parte de um léxico de lugares-comuns que deveriam ser proibidos – não apenas nos tomam por estúpidos, como querem assegurar-se que permaneçamos como tal até ao fim dos tempos. Uma escala de alertas com uma dúzia de possibilidades obrigava-nos a pensar. O que implicaria uma intensificação das sinapses entre os neurónios, provocando o aumento da inteligência não só de cada um, como do todo nacional. Uma escala com 36 cores tornar-nos-ia o povo mais inteligente ao cimo do planeta. Contudo, estamos reduzidos a amarelo, laranja e vermelho. O verde é apenas para disfarçar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O melhor dos mundos

Depois de uns dias fora, retorno à pátria e vejo-a num estado de exaltação por causa de um jogador de futebol. A princípio pensei que toda essa preocupação seria uma manifestação da leviandade nacional. E nisto não há censura. Também a leviandade pertence à lista de coisas permissíveis. Depois, mudei de opinião. Essa exaltação, com partidos pró e contra, era a manifestação de que vivemos no melhor dos mundos. Não se trata de afirmar, como Gottfried Leibniz, que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Não. Se o que nos exalta é um drama em torno do pontapé na bola, então vivemos no melhor dos mundos. Tantos dos possíveis como dos impossíveis. Não temos preocupações espirituais maiores do que saber se as atitudes dos protagonistas são moralmente aceitáveis ou não. Também as preocupações materiais se reduzem ao impacto económico nos actores do drama. Ora, um país cuja população tem estas preocupações não apenas como decisivas, mas como únicas, só pode ser uma pátria abençoada. Até este narrador se sente leve e nada o preocupa, mesmo que não tenha capacidade para seguir o folhetim. Contamina-o o ar do tempo, essa exaltação que se manifesta em todo o lado. É mesmo altura para fazer um acto de contrição e reconhecer aquilo que é importante na existência. Daqui a pouco irá ver o jogo de Portugal com a Dinamarca e avaliar como se desenvolve a excitação nacional motivada pelo tal jogador de futebol.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Comprar livros

Como estou, já por pouco tempo, na Galiza, numa vila cujo nome omito, decidi entrar numa livraria que me apareceu pelo caminho. Nunca tinha visto uma livraria tão desarrumada. Parece não haver critério para organizar a exposição dos livros. Contudo, o livreiro deve ser um amante incondicional da sua actividade. Perguntei-lhe por dois autores com ligações à vila. E ele, buscando aqui e ali, lá foi descobrindo os seus livros. Falou-me deles com entusiasmo. Aliás, o seu entusiasmo ainda foi maior quando lhe dissemos que éramos portugueses e não anglo-saxões, como imaginara, segundo confessou. Ficámos a conversar sobre livros. Contou-nos que tinha comprado o espólio de uma livraria de livros portugueses que havia em Santiago de Compostela, mas que já não tinha quase nada. Comprei alguns livros dos autores que procurava e também de autores galegos que não procurava, mas que conhecia. No fim, ofereceu-nos um livro, uma espécie de romance etnográfico sobre a região. Prometemos voltar. E espero poder cumprir a promessa. Comprar livros a alguém que os ama não é a mesma coisa que comprar livros onde só existem funcionários que estão ali porque não conseguem estar noutro lado. Curiosamente, a livraria tem o mesmo nome que uma que frequento, com o mesmo entusiasmo, em Campo de Ourique, embora esta seja completamente organizada.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Extinção

Por aqui, onde me encontro de momento, outoneceu. Quase não há vestígios de Verão. No entanto, há uma coisa que os habitantes locais nunca viram: um dos dois rios que confinam a propriedade secou. E o outro é um fio de água débil. Esperam pela chuva para ressuscitar o que morreu e dar força ao que foi debilitado pelo calor deste ano. Apesar disso, toda a envolvência continua a verdejar, como se fosse um resto esquecido do paraíso terrestre. Talvez seja por não suportarem as reminiscências desse paraíso que os homens se esforçam por destruí-las. A ideia central que parece comandar a humanidade é a de extinguir tudo o que seja aprazível e tornar cada lugar numa antecâmara do Inferno. É possível que sejamos uma espécie ameaçada, à beira da extinção. Seremos, caso isso aconteça, a primeira que se extingue por deliberação própria. Bem, isto está a ficar apocalíptico, o que não é propriamente o tom desta casa. Seja como for, vivemos uma época em que a temática da extinção da humanidade se tornou assunto nos media e nas redes sociais. Perante isso, há quem não creia na realidade da ameaça, há quem esteja convicto dela. Há também aqueles que encolhem os ombros e dizem: se a nossa espécie acabar, não se perderá grande coisa, e todas as outras ficarão gratas pelo seu suicídio. Isto é um menu: cada um escolherá a alternativa que mais desejar, pois nós, humanos da espécie sapiens sapiens, movemo-nos mais pelo desejo do que pela razão. Eis um post cinzento. Não como o dia, que também está cinzento, mas como o ânimo de quem olha para o leito de um rio e só vê pedras, ervas, folhas mortas, mas não um fio de água.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sem liberdade de escolha

No outro dia, fui ver a exposição de Alice Neel a Serralves. Paguei dez euros, pois estava incluído em duas categorias: residente em Portugal e maior de 65 anos. Desconto de 50%. Pensei que era uma coisa simpática. Hoje, porém, ao subir um pouco a serra onde me encontro de férias, para descansar das férias deste Verão, percebi que era preferível pagar o bilhete por completo. Talvez o corpo protestasse menos com o esforço da subida. Não se pode ter tudo, pensei. Depois, disse para mim: ao menos podia haver liberdade de escolha. Poder optar pelo desconto para maiores de 65 anos ou ter apenas 40 anos e não ter direito a qualquer desconto. Contudo, este é um assunto que está fechado por um rigoroso determinismo. A princípio, pensei que, nesta impossibilidade de escolha, se escondia um artifício do Criador, seja este um Deus omnipotente e sumamente bom, seja este apenas a Natureza. Cada um escolhe, no menu da criação, a opção que está de acordo com a sua crença. Note-se que não há escolha por omissão nem escolha predefinida. Segundo a doutrina da Igreja, fomos criados com livre-arbítrio. Porém, quando queremos usá-lo naquilo que é fundamental, descobrimos que não há qualquer escolha possível. Talvez a Natureza não se entusiasme com seres que podem escolher. Em vez de me revoltar contra o Criador, Deus ou Natureza, meditei nas consequências de nos ser dada a possibilidade de escolher entre o desconto para seniores ou ter 40 anos. O mundo estaria cheio de gente de 40 anos. O que pareceria, a princípio, divertido acabaria por se tornar um pesadelo. Não vale a pena explicar porquê. Basta meditar sobre o que são os homens e as mulheres aos 40 anos. O melhor, pensei, depois de olhar para uma série de pessoas do meu tempo, incluindo-me a mim, aos 40 anos, é aceitar que nos façam descontos triviais pela trivialidade de ter mais de 65 anos.

domingo, 27 de setembro de 2026

O milagre que não vem

Lá fora, chove. Oiço o canto de um pássaro, mas não sei identificar o cantor. Penso muitas vezes que desconheço tudo o que é essencial. Não apenas o canto das aves, mas o seu reconhecimento. Uma dúzia será um número excessivo para contabilizar a minha capacidade para as identificar. Claro que galinhas e patos não entram em tal contabilidade. A ignorância que mais me dói é a das árvores. Tenho um reportório de conhecimento muito limitado. O mesmo se passa com os arbustos e, também, com as flores. Há dias em que imagino obrigar-me, num exercício de ascese, a estudar esses mundos que desconheço, mas nunca dou o primeiro passo. Desconfio que a minha consciência espera um milagre. Um dia acordo e tenho em mim todo esse amplo saber que me falta, diz-me ela. Todas as noites, essa consciência deita-se, dizendo: será esta noite. Ao acordar, limita-se a reconhecer que ainda não foi nessa noite que esse saber fundamental a inundou. Há que esperar a noite que vem, considera. E eu espero, em vez de me obrigar à dura disciplina da aprendizagem. O pássaro calou-se, mas a chuva continua a cair sobre as árvores que rodeiam a casa onde estou, numa espécie de exílio. Um exílio dourado, digamos assim.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O peso da viagem

No Diário da Minha Mochila, um dos seis Diários de Viagem de Matsuo Bashô (1644-1694), traduzidos por Jorge de Sousa Braga, encontra-se o melhor conselho que alguém pode dar, aquele que todos deviam receber como sinal de sabedoria: Deitei fora um certo número de coisas, para viajar mais leve. O poeta japonês refere-se à viagem que estava a realizar, mas a frase aplica-se à maior das viagens que cada um deve fazer, aquela que liga os portos do nascimento e da morte. Como temos uma inclinação para nos sobrecarregarmos de coisas, transformamos essa viagem, a única decisiva, numa carga que, na verdade, não conseguimos suportar. Por isso, e para continuar com Bashô, o caminhante progride devagar, os passos vacilam, os joelhos tremem e a depressão bate-lhe à porta. A sabedoria ensina-nos a leveza, mas preferimos a carga. Cobrimo-nos de propriedades, como se alguma coisa nos pertencesse. Nisto, este narrador não se distingue de todos os outros. Também ele se reveste de propriedades, por insignificantes que sejam. São a forma como a sua inultrapassável estultícia se manifesta. Há que deitar fora muitas coisas para que a viagem se torne mais leve, mas um espírito vacilante e uma alma volúvel não sabem como torná-la mais leve. Cada vez que o tentam, acabam por fazê-la mais pesada, mais dolorosa, pois transformam esse desejo ainda numa propriedade que devem adquirir. Talvez por isso os ombros me doam e os joelhos trémulos se inclinem para a terra.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Armas e barões

Talvez seja por isso que os alunos desesperam, se é que desesperam, com o contacto com Os Lusíadas, de Luís de Camões. Mal o incauto leitor põe os olhos no primeiro verso, As armas e os barões assinaladas, logo depara com um problema retórico. Será que se está perante uma hendíadis ou não? Uma das teses em confronto afirma que sim. Camões estaria realmente a dizer o seguinte: Os barões aguerridos. Como em tudo o que alimenta as paixões humanas, também aí surgiu um partido contrário. Não, não senhor, aquilo não é uma hendíadis, assevera o secretário-geral, logo aplaudido pela multidão de militantes anti-hendíadis. Antes de podermos mergulhar nas águas lodosas da discussão, convém esclarecer a figura de estilo em disputa. Ora, uma hendíadis exprime uma única ideia complexa através de duas palavras coordenadas (geralmente ligadas por «e»), em vez de usar uma palavra modificada por outra (como um substantivo e um adjectivo, ou um verbo e um advérbio). Um exemplo camoniano: Sob os olhos de Deus e da piedade. Teríamos a ideia complexa de um Deus piedoso expressa por duas palavras coordenadas por «e». A definição parece dar vantagem ao partido defensor da hendíadis. De facto, a interpretação desse partido – Os barões aguerridos – está construída para que ele saia vencedor. Um truque político recorrente. O partido do contra, porém, argumenta que aquilo não passa de uma mera coordenação regular, na qual o poeta junta dois conceitos, que introduzem dois temas de igual importância. O tema das guerras travadas pelos portugueses e os homens heróicos que as travaram. Portanto, segundo este partido maximalista, Camões não canta apenas barões belicosos, mas louva as guerras travadas e os heróis que nelas combateram. A estratégia partidária não é muito diferente. A sua posição funda-se na interpretação que faz. O tal truque recorrente no universo da política. E o que diz o próprio Camões? Nada! Limitou-se a escrever As armas e os barões assinaladas. Quando lhe perguntei qual a posição dele, depois de um longo e pesado silêncio, disse-me: não tenho paciência para taxionomias de tropos literários. Quero que ambos os partidos se… (tive de censurar a palavra do poeta). Senti-me vexado e desejoso de me vingar da humilhação. Construí, então, uma opinião própria, rigorosamente apartidária, o que significa, neste caso, que pertenço a um partido formado só por mim. Qual é a minha tese? Camões estava a começar o poema, não sabemos sob o efeito de quê, e não sabia muito bem o que ia sair na sequência daquele primeiro verso. E, em vez de apresentar um verso claro e distinto, como as ideias cartesianas, criou uma confusão, que originou, ainda mal o poema tinha começado, partidos e uma guerra civil larvar em torno da interpretação de as armas e dos barões. Não fosse o descuido com que o poema começou, não teríamos uma guerra civil hermenêutica, e os alunos perceberiam o que o poeta quis escrever. Se alguém, porém, quiser saber o que Camões quis escrever, então leia o que lá está e não pense mais no assunto. Com esta minha posição, espero ter posto fim à guerra civil e respondido ao poeta com uma humilhação idêntica àquela com que me humilhou. Passei-me. Onde está o meu amor pelos limites, que ontem aqui cantei? Se esse amor fosse verdadeiro, não tinha escrito tanta parvoíce só de uma assentada. Uma estupidez, que é, talvez, a única coisa que é infinita neste mundo e talvez nos outros.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Amor ao limite

Segundo informação pesquisada online, o Outono, a mais bela das estações, chegou hoje. Era uma hora e cinco minutos quando ele entrou. Nesse instante, finou-se o Verão, mas com um estranho destino. Tornou-se um fantasma. Agora, arrasta-se por aí, como se ainda pertencesse ao número dos vivos e, atemorizando o próprio Outono, distribui, por estes lados, temperaturas absurdas. Irrita-me esta tentação de os mortos quererem prolongar a existência que já não têm, invadindo o território do que está vivo. Nasci com uma alma geométrica e amante dos limites. Por isso, amo fronteiras, demarcações e estremas. Não por qualquer fervor patriótico ou amor à propriedade. O que eu gosto mesmo é dos limites. Não sei onde este amor terá nascido, mas penso que foi durante a gravidez. Formado o cérebro, desenhou-se, dentro de mim, uma discussão de tipo futebolístico. Quererei vir a ser um apolíneo ou um dionisíaco? Esses debates, tanto quanto sei, nunca chegaram ao conhecimento daquela que me trazia no ventre. E talvez isso fosse um sinal da minha escolha. Nesses momentos, havia, no pequeno e mal formado ser que eu era, uma inclinação para Dioniso, mas Apolo era muito mais forte, pouco dado a desperdiçar energia em coisas que o pudor me impede de relatar aqui. Foi vencedor da disputa. Quando fui dado à luz, trazia a coroa de louros e, nas mãos, havia uma pequena lira. Nunca suportei, desde então, que o rigor geométrico não orientasse as minhas opiniões sobre o que quer que seja. Ontem, podia fazer calor à vontade. Hoje, porém, a partir da uma hora e cinco minutos, as temperaturas deviam estar mais baixas, as folhas a caírem e eu mais reconciliado com as estações do ano. O problema é que Dioniso anda à solta — por vezes, nem eu escapo — e infringe fronteiras, demarcações e estremas. Será ele o culpado de o Verão não respeitar a sua condição de morto e andar aí, como uma ménade enlouquecida, de tirso na mão.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Um telefonema

Achei-o sem o vigor de há um mês, quando nos encontrámos em plena época balnear, para uma daquelas sortidas de grupo em busca do prazer da comida e, por influência de um certo deus pagão, da bebida. Refiro-me ao meu amigo Lodovico Settembrini, o padre Lodo, como é conhecido por todos os que lidam com ele. Deu-me os parabéns pelos 18 anos da minha neta. Já tinha falado com ela, mas não pode vir jantar com a família, disse-me. Tem estado com uma virose e ainda não recuperou. Não se esqueceu, porém, de uma velha mágoa. Não ter baptizado nenhum dos meus netos. Eu ri e repeti o que lhe disse outras vezes, os poderes dos avós sobre certas coisas são escassos. Confluem muitos interesses e, em última análise, não somos nós que decidimos. Sabe, retorquiu, na verdade é irrelevante quem foi o oficiante. O sacramento vale por si mesmo e não por quem o aplica. Ah… exclamei, hoje está muito benevolente, mas dessas coisas sei pouco ou nada. Sim, sempre teve um espírito pouco dado a estes mistérios. Sou um velho jesuíta, prosseguiu, talvez ande um pouco temeroso com aquilo que um dia destes terá de chegar. Teme a morte, perguntei-lhe, em jeito de provocação. Cale-se, respondeu. Temo não ter vivido como deve ser. Mas não quero falar sobre esses assuntos. Talvez, um dia destes, nos possamos juntar num certo restaurante alentejano, que muito bem conhecemos. Um bom tinto abrir-me-á a alma a essa meditação perante amigos. Agora, quero desejar-lhe um dia feliz. Um dia destes, ligue-me para saber se a virose já se foi e se tenho o campo livre para meditações num templo gastronómico. A vida não dura toda a eternidade.