No Diário da Minha Mochila, um dos seis Diários de Viagem de Matsuo Bashô (1644-1694), traduzidos por Jorge de Sousa Braga, encontra-se o melhor conselho que alguém pode dar, aquele que todos deviam receber como sinal de sabedoria: Deitei fora um certo número de coisas, para viajar mais leve. O poeta japonês refere-se à viagem que estava a realizar, mas a frase aplica-se à maior das viagens que cada um deve fazer, aquela que liga os portos do nascimento e da morte. Como temos uma inclinação para nos sobrecarregarmos de coisas, transformamos essa viagem, a única decisiva, numa carga que, na verdade, não conseguimos suportar. Por isso, e para continuar com Bashô, o caminhante progride devagar, os passos vacilam, os joelhos tremem e a depressão bate-lhe à porta. A sabedoria ensina-nos a leveza, mas preferimos a carga. Cobrimo-nos de propriedades, como se alguma coisa nos pertencesse. Nisto, este narrador não se distingue de todos os outros. Também ele se reveste de propriedades, por insignificantes que sejam. São a forma como a sua inultrapassável estultícia se manifesta. Há que deitar fora muitas coisas para que a viagem se torne mais leve, mas um espírito vacilante e uma alma volúvel não sabem como torná-la mais leve. Cada vez que o tentam, acabam por fazê-la mais pesada, mais dolorosa, pois transformam esse desejo ainda numa propriedade que devem adquirir. Talvez por isso os ombros me doam e os joelhos trémulos se inclinem para a terra.
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