Talvez seja por isso que os alunos desesperam, se é que desesperam, com o contacto com Os Lusíadas, de Luís de Camões. Mal o incauto leitor põe os olhos no primeiro verso, As armas e os barões assinaladas, logo depara com um problema retórico. Será que se está perante uma hendíadis ou não? Uma das teses em confronto afirma que sim. Camões estaria realmente a dizer o seguinte: Os barões aguerridos. Como em tudo o que alimenta as paixões humanas, também aí surgiu um partido contrário. Não, não senhor, aquilo não é uma hendíadis, assevera o secretário-geral, logo aplaudido pela multidão de militantes anti-hendíadis. Antes de podermos mergulhar nas águas lodosas da discussão, convém esclarecer a figura de estilo em disputa. Ora, uma hendíadis exprime uma única ideia complexa através de duas palavras coordenadas (geralmente ligadas por «e»), em vez de usar uma palavra modificada por outra (como um substantivo e um adjectivo, ou um verbo e um advérbio). Um exemplo camoniano: Sob os olhos de Deus e da piedade. Teríamos a ideia complexa de um Deus piedoso expressa por duas palavras coordenadas por «e». A definição parece dar vantagem ao partido defensor da hendíadis. De facto, a interpretação desse partido – Os barões aguerridos – está construída para que ele saia vencedor. Um truque político recorrente. O partido do contra, porém, argumenta que aquilo não passa de uma mera coordenação regular, na qual o poeta junta dois conceitos, que introduzem dois temas de igual importância. O tema das guerras travadas pelos portugueses e os homens heróicos que as travaram. Portanto, segundo este partido maximalista, Camões não canta apenas barões belicosos, mas louva as guerras travadas e os heróis que nelas combateram. A estratégia partidária não é muito diferente. A sua posição funda-se na interpretação que faz. O tal truque recorrente no universo da política. E o que diz o próprio Camões? Nada! Limitou-se a escrever As armas e os barões assinaladas. Quando lhe perguntei qual a posição dele, depois de um longo e pesado silêncio, disse-me: não tenho paciência para taxionomias de tropos literários. Quero que ambos os partidos se… (tive de censurar a palavra do poeta). Senti-me vexado e desejoso de me vingar da humilhação. Construí, então, uma opinião própria, rigorosamente apartidária, o que significa, neste caso, que pertenço a um partido formado só por mim. Qual é a minha tese? Camões estava a começar o poema, não sabemos sob o efeito de quê, e não sabia muito bem o que ia sair na sequência daquele primeiro verso. E, em vez de apresentar um verso claro e distinto, como as ideias cartesianas, criou uma confusão, que originou, ainda mal o poema tinha começado, partidos e uma guerra civil larvar em torno da interpretação de as armas e dos barões. Não fosse o descuido com que o poema começou, não teríamos uma guerra civil hermenêutica, e os alunos perceberiam o que o poeta quis escrever. Se alguém, porém, quiser saber o que Camões quis escrever, então leia o que lá está e não pense mais no assunto. Com esta minha posição, espero ter posto fim à guerra civil e respondido ao poeta com uma humilhação idêntica àquela com que me humilhou. Passei-me. Onde está o meu amor pelos limites, que ontem aqui cantei? Se esse amor fosse verdadeiro, não tinha escrito tanta parvoíce só de uma assentada. Uma estupidez, que é, talvez, a única coisa que é infinita neste mundo e talvez nos outros.
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