domingo, 27 de setembro de 2026

O milagre que não vem

Lá fora, chove. Oiço o canto de um pássaro, mas não sei identificar o cantor. Penso muitas vezes que desconheço tudo o que é essencial. Não apenas o canto das aves, mas o seu reconhecimento. Uma dúzia será um número excessivo para contabilizar a minha capacidade para as identificar. Claro que galinhas e patos não entram em tal contabilidade. A ignorância que mais me dói é a das árvores. Tenho um reportório de conhecimento muito limitado. O mesmo se passa com os arbustos e, também, com as flores. Há dias em que imagino obrigar-me, num exercício de ascese, a estudar esses mundos que desconheço, mas nunca dou o primeiro passo. Desconfio que a minha consciência espera um milagre. Um dia acordo e tenho em mim todo esse amplo saber que me falta, diz-me ela. Todas as noites, essa consciência deita-se, dizendo: será esta noite. Ao acordar, limita-se a reconhecer que ainda não foi nessa noite que esse saber fundamental a inundou. Há que esperar a noite que vem, considera. E eu espero, em vez de me obrigar à dura disciplina da aprendizagem. O pássaro calou-se, mas a chuva continua a cair sobre as árvores que rodeiam a casa onde estou, numa espécie de exílio. Um exílio dourado, digamos assim.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.