segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Sem liberdade de escolha

No outro dia, fui ver a exposição de Alice Neel a Serralves. Paguei dez euros, pois estava incluído em duas categorias: residente em Portugal e maior de 65 anos. Desconto de 50%. Pensei que era uma coisa simpática. Hoje, porém, ao subir um pouco a serra onde me encontro de férias, para descansar das férias deste Verão, percebi que era preferível pagar o bilhete por completo. Talvez o corpo protestasse menos com o esforço da subida. Não se pode ter tudo, pensei. Depois, disse para mim: ao menos podia haver liberdade de escolha. Poder optar pelo desconto para maiores de 65 anos ou ter apenas 40 anos e não ter direito a qualquer desconto. Contudo, este é um assunto que está fechado por um rigoroso determinismo. A princípio, pensei que, nesta impossibilidade de escolha, se escondia um artifício do Criador, seja este um Deus omnipotente e sumamente bom, seja este apenas a Natureza. Cada um escolhe, no menu da criação, a opção que está de acordo com a sua crença. Note-se que não há escolha por omissão nem escolha predefinida. Segundo a doutrina da Igreja, fomos criados com livre-arbítrio. Porém, quando queremos usá-lo naquilo que é fundamental, descobrimos que não há qualquer escolha possível. Talvez a Natureza não se entusiasme com seres que podem escolher. Em vez de me revoltar contra o Criador, Deus ou Natureza, meditei nas consequências de nos ser dada a possibilidade de escolher entre o desconto para seniores ou ter 40 anos. O mundo estaria cheio de gente de 40 anos. O que pareceria, a princípio, divertido acabaria por se tornar um pesadelo. Não vale a pena explicar porquê. Basta meditar sobre o que são os homens e as mulheres aos 40 anos. O melhor, pensei, depois de olhar para uma série de pessoas do meu tempo, incluindo-me a mim, aos 40 anos, é aceitar que nos façam descontos triviais pela trivialidade de ter mais de 65 anos.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.