Segundo informação pesquisada online, o Outono, a mais bela das estações, chegou hoje. Era uma hora e cinco minutos quando ele entrou. Nesse instante, finou-se o Verão, mas com um estranho destino. Tornou-se um fantasma. Agora, arrasta-se por aí, como se ainda pertencesse ao número dos vivos e, atemorizando o próprio Outono, distribui, por estes lados, temperaturas absurdas. Irrita-me esta tentação de os mortos quererem prolongar a existência que já não têm, invadindo o território do que está vivo. Nasci com uma alma geométrica e amante dos limites. Por isso, amo fronteiras, demarcações e estremas. Não por qualquer fervor patriótico ou amor à propriedade. O que eu gosto mesmo é dos limites. Não sei onde este amor terá nascido, mas penso que foi durante a gravidez. Formado o cérebro, desenhou-se, dentro de mim, uma discussão de tipo futebolístico. Quererei vir a ser um apolíneo ou um dionisíaco? Esses debates, tanto quanto sei, nunca chegaram ao conhecimento daquela que me trazia no ventre. E talvez isso fosse um sinal da minha escolha. Nesses momentos, havia, no pequeno e mal formado ser que eu era, uma inclinação para Dioniso, mas Apolo era muito mais forte, pouco dado a desperdiçar energia em coisas que o pudor me impede de relatar aqui. Foi vencedor da disputa. Quando fui dado à luz, trazia a coroa de louros e, nas mãos, havia uma pequena lira. Nunca suportei, desde então, que o rigor geométrico não orientasse as minhas opiniões sobre o que quer que seja. Ontem, podia fazer calor à vontade. Hoje, porém, a partir da uma hora e cinco minutos, as temperaturas deviam estar mais baixas, as folhas a caírem e eu mais reconciliado com as estações do ano. O problema é que Dioniso anda à solta — por vezes, nem eu escapo — e infringe fronteiras, demarcações e estremas. Será ele o culpado de o Verão não respeitar a sua condição de morto e andar aí, como uma ménade enlouquecida, de tirso na mão.
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