terça-feira, 24 de setembro de 2019

Da vida amputada

Depois de almoço fui atormentado por uma sonolência infame. Cabeceei, adormeci por instantes, para acabar por acordar sem ter dormido. Imaginei-me dentro de um sonho, cujos contornos logo se esvaíram. O peso das pálpebras é o pior. Nada mais difícil do que a ascese da vigília. Nem a frugalidade monástica da refeição obliterou a tentação. Deveria escrever sobre a vida amputada mas não me ocorre nada que mereça ser dito. Ontem fui ao cinema. Uma plateia ansiosa esperava acção decidida, mas a obra explora a lentidão com que os sentimentos se desenham debaixo da pele para depois brotarem na sua crueza. Ao sair da sala pensei que a tensão entre pai e filho no filme é uma brincadeira sem astúcia nem engenho se comparada com a de Johan e de Henrik no último trabalho de Bergman. Por outro lado, depois de Eça ninguém, num romance ou num filme, deveria ousar trazer o incesto para o enredo. Daqui a pouco terei de entrar para dentro do reino da necessidade e esgaravatar na terra húmida das coisas que não interessam. Nem a mim, nem a ninguém. Talvez seja isso o que há a dizer da vida amputada.

2 comentários:

  1. Pela lentidão suponho que se está a referir ao filme português de que todos falam (li uma crítica algures).
    O filme do Bergman só pode ser o Saraband, pela tensão entre pai e filho e também pelo incesto, embora este não seja entre irmãos.
    E o HV gostou do filme? Acha que temos alguma hipótese de chegar aos Óscares?
    🎬
    Maria

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    1. O filme é, claro, A Herdade, e o de Bergman, Saraband. Quanto a Óscares nada sei. É um belo filme e vale a pena ver. Bergman, porém, pertence a outra galáxia, mas A Herdade é uma aproximação sulista a certas temáticas que percorrem a obra de Bergman.

      HV

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