domingo, 29 de setembro de 2019

A alegria do guarda-redes

Não sei o que aconteceu, mas aquela melancolia dos domingos à tarde parece ter-se desvanecido. Não é que tenha razões para tal. As segundas-feiras continuam a seguir-se aos domingos e não me deixaram de trazer com elas os imperativos com que a necessidade me carrega. Lembrei-me, ao pensar nisto, do livro de Peter Handke, que deu origem a um filme de Wim Wenders, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty. O que angustia o guardador das redes é não saber o que adversário vai fazer, para onde vai atirar a bola. Isso não se pode comparar com a melancolia dos domingos, pois esta nasce de se saber bem de mais o que o dia seguinte traz. Lá fora, a noite progride, cavalga sobre o casario, ri-se das luzes com que os homens fingem deter o seu império tecido na urze das trevas. O silêncio tomou conta das ruas e o último guarda-redes, depois de se atirar para o lado errado, vai a pé para casa, alegre por amanhã ser ainda segunda-feira.

Sem comentários:

Enviar um comentário