sexta-feira, 5 de maio de 2023

Anonimato

Não sei a razão, ou talvez saiba, mas hoje, por várias vezes, dei comigo a olhar para o dia e achar que era sábado. Em resumo, na minha mente, caso tenha uma, esta sexta-feira não passa de um sábado disfarçado. Se nós, seres humanos, nos disfarçamos, por que estranha razão os dias não o poderão fazer? Aqui, por exemplo, o narrador esconde-se no disfarce do anonimato, o que acontece com muitos narradores, embora menos com os autores, mas não é a circunstância presente. Tão anónimo é o autor quanto o narrador. As coisas têm explicações simples. O autor não conseguiu encontrar um nome adequado para o narrador e preferiu a omissão. Quanto ao nome do próprio autor, este achou que o cansava e proibiu qualquer revelação. Há pessoas que se cansam de si próprias, outras cansam-se do seu nome. Há uma razão funda para alguém se cansar do nome, embora pouca gente pense no assunto. O nome que se tem, aquele que dizemos este é o meu nome resultou de uma atribuição para a qual o portador não deu qualquer contributo. Toda a vida transportamos como nossa uma coisa que nos foi imposta. Segundo sei, e um narrador sabe muitas coisas, o autor nada tem contra o seu nome, o qual se integra na onomástica nacional, sem excessos para cima ou para baixo. Um nome normal, cairá dentro da curva de Gauss. Contudo, para certos efeitos, o autor cansou-se dele e decidiu-se pela ocultação. Poderia ter mudado de nome, mas achou que tão pesado será o nome que nos deram como aquele que escolhemos. Sem nome, fica mais leve e o que mais se precisa neste tempo de calor é de leveza. A sexta-feira continua com cara de sábado.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Kitsch e ideias feitas

Duas belas edições chegaram-me hoje através dessa empresa elusiva que dá pelo nome de CTT, que tantas coisas boas, ao longo de décadas, me tem trazido. Na caixa do correio, encontrei, ao chegar a casa, o número 20 da revista Electra. Textos e imagens combinam-se num produto sumptuoso e de preço irrisório. Deveria ter evitado a adjectivação. É de mau gosto, talvez um exemplo do Kitsch, usar palavras como sumptuoso e irrisório. Ora, o assunto nuclear da revista é, neste número primaveril, o gosto, e há um artigo de António Guerreiro com o título de O Kitsch e outras declinações do mau gosto. A outra edição não a encontrei na caixa do correio, mas tive de ir por ela a um balcão dos CTT. Trata-se do volume I de Gargântua & Pantagruel, uma tradução do poeta Manuel de Freitas, com as inevitáveis ilustrações de Gustave Doré. A obra é publicada pela E-Primatur, uma editora que funciona através de projectos que são apoiados pelo público. Tinha dado apoio à publicação desta tradução, mas depois apaguei o facto da memória ou entreguei-o ao reino sombrio do esquecimento. Insisto no kitsch. Agora, recebi-o, não sem antes ter recebido um email que me avivou a memória e me retirou do abismo do olvido. A Electra termina com uma entrada, ou verbete, “Nómada” (mais honestamente, NÓ ● MA ● DA), da autoria de Daniel Jonas, do Dicionário das Ideias Feitas. Ora, aqui está uma coisa à minha dimensão, para além do kitsch, as ideias feitas. Nem sequer posso dizer que essas ideias feitas foram compradas. Umas foram herdadas, outras tomei-as de empréstimo, outras tê-las-ei roubado nem sei onde, e outras haverá que achei, pobrezinhas, pois andavam por aí ao deus-dará e recolhi-as. Por outro lado, e há sempre um outro lado, apesar da diversidade da sua origem, elas não são muitas. Além de feitas, as minhas ideias são escassas. Pertenço a um tempo de escassez e até nas ideias sou frugal, para evitar que me provoquem colesterol, uma coisa horrível como prova a origem grega da palavra, que deriva de Kholé (bílis) e steréos (sólido), ao que se adiciona, como se fosse sal, o sufixo -ol. Tudo informação gratuita da Porto Editora, passe a publicidade.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

O mesmo e o outro

Num livro lido há muito encontrei múltiplas passagens sublinhadas a lápis. Por curiosidade, fui passando as páginas e lendo os sublinhados. Seria muito cómodo afirmar que, se lesse esse livro de novo e em estado imaculado, sublinharia as mesmas coisas. Com isso daria a prova de ser sólido, imutável, um carácter nada volúvel. Seria comovente, mas falso. Em primeiro lugar, é pouco provável que me pusesse a ler aquele livro. Depois, entre mim e aquele que, com a minha mão, sublinhou o livro há uma distância que não me parece pequena. O sublinhador tornou-se-me estranho, se não estrangeiro. Um dia, alguém me disse que permanecemos sempre o mesmo, que, na verdade, nunca mudamos. Não foi bem a mim, mas aos alunos que assistiam a uma amena aula, que decorria na Faculdade de Letras, talvez numa tarde já quente. Imaginei que seria uma afirmação de Parménides contra Heraclito, mas achei-a estranha. Talvez a experiência do confessionário, pensei, lhe tenha ensinado a imutabilidade do carácter humano, pois a afirmação veio de um padre. Contudo, ela trazia uma negação terrível da própria função sacerdotal. Se permanecemos sempre os mesmos, que sentido fará tentar salvar as almas da perdição? Se eu permanecesse o mesmo, reconhecer-me-ia nos sublinhados feitos há décadas, mas não me reconheço. Logo, não sou o mesmo que era nesses dias. Também é possível que o outro e o mesmo sejam distinções sem sentido, fruto de uma fantasia de distinção, isto é, um jogo da imaginação. Está uma tarde sem sol, mas abafada. Uma luz de cinza esbranquiçada cai em borbotões sobre a praça. Os ramos das acácias e das tílias vergam-se ao peso dessa luz, inclinando-se para a terra, como se ela fosse a sua casa.

terça-feira, 2 de maio de 2023

Contaminações

Respiro fundo ao sentar-me na minha cadeira. Ela, a pobre cadeira, é um dos lugares do mundo de que mais gosto. Por vezes, arrasta-me para o território da sonolência, mas tem-me sido fiel como um cão e prestável como um serviçal. Imagino que as analogias usadas sejam reprováveis. Não cairá bem aos representantes dos cães que os seus representados sejam retratados por uma característica que lhes anule a autonomia e os aprecie como instrumentos ao serviço de uma outra espécie. Também passou o tempo dos serviçais, pois todos nos tornámos membros de um exército de serviçais, cada um com a sua patente. Ora se todos somos serviçais, é como se ninguém o fosse. E daquilo que não é não se deve falar. Isto é o que me ocorre, agora que estou refastelado na cadeira, deixando a tarde deslizar em direcção à foz, deixando as vozes da rua ecoarem até que o silêncio as devora e tudo se torna mais nítido, mais transparente. Sim, é verdade, o ruído é uma fonte de deformação da visão, impede-nos de ver claro, de apreciar a forma das coisas, os seus contornos. Este efeito não é estranho e muito menos único. Também os maus aromas impedem o gosto de saborear com adequação. Os sentidos contaminam-se uns aos outros, para contaminarem, depois, a razão, a imaginação, a memória. Cada ser humano é o produto mil contaminações, que um esforço absurdo tenta desfazer, para que tudo se torne puro e independente. Tempo perdido.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Um país de solucionadores

Hoje, 31 graus. Amanhã, 36. Eis um dos meus temas preferidos, as desventuras do calor. Outra coisa que me impressiona é a grande capacidade de os portugueses encontrarem soluções para problemas que, além de os desconhecerem, não têm qualquer possibilidade de executarem a solução que propõem. Estava eu à espera de outra pessoa, quando alguém me interpela por causa do calor e do calor saltou de imediato para a falta de água. Um deserto é para onde caminhamos, disse eu para não me comprometer. Deserto, não. Temos de usar água do mar, dessalinizá-la, exclamou. Não contente, afirmou que isso já acontecia há mais de 20 anos no Porto Santo ou numa outra ilha qualquer, não retive o nome. Canalizam a água como o gás. Eu que não faço ideia nenhuma do assunto, nem fiz notar que entre uma ilha minúscula e o país, apesar de pequeno, não há comparação possível. Chegou a pessoa por quem esperava e fui-me embora, deixando o solucionador de problemas a vociferar contra a burocracia, que, para além dos políticos, é sempre um útil bode expiatório para as nossas incompetências. Durante a minha vida, já longa, descobri que os portugueses são muito bons naquilo que não lhes cabe fazer. Este solucionador poder-me-ia ter dito que já estava a poupar água, que era frugal na sua utilização, que, usando a informática, tinha racionalizado o consumo em casa, sei lá, qualquer coisa que estivesse na mão dele, mas não. A solução óptima é sempre aquela que os outros têm de fazer, não a que me cabe realizar. Em tempos muito recuados da minha existência, naquela idade em que o fervor anímico é inversamente proporcional à compreensão da realidade, também cheguei a ter em carteira algumas fórmulas milagrosas, mas depressa me tornei ateu relativamente a essas divindades pagãs. Não só não lhes presto culto, como não tenho qualquer solução para seja o que for que ultrapasse os meus limitados poderes, e mesmo dentro destes, as soluções que encontro deixam sempre muito a desejar. Para dizer a verdade, nem me preocupo muito com a existência de pessoas que transbordam de soluções para os outros realizarem, desde que me sejam poupadas homilias, pregações, prédicas e sermões. Está calor e é tudo o que tenho para dizer.

domingo, 30 de abril de 2023

Com zelo e aptidão

O mês despede-se hoje sem honra nem glória, mas isso é o que acontece normalmente. A honra e a glória são excepções, não a norma. Há pouco, remexendo em velhos papéis, encontrei um diploma do Ministério do Exército que certifica que o titular do presente diploma desempenhou com aptidão e zelo, durante 12 (DOZE) MESES, as funções… Tal como o titular do diploma que foi apto e zeloso, mas não se distinguiu no campo de batalha, o qual nos meses referidos no diploma, esteve fechado e assim se tem mantido, e, por isso, não alcançou honra e glória, também o mesmo aconteceu com o mês que agora termina. Foi apto? Foi. Foi zeloso? Também. Preencheu todos os dias que o calendário lhe atribuiu, não lhe terá faltado com um minuto. Agora, chegada a meia-noite, entrará para a casa translúcida do nada e, exceptuando um ou outro motivo que nele se animou, fará do esquecimento o seu modo de ser. Entretanto, estava sintonizado na Antena 2 e oiço um anúncio institucional ao CD do compositor e pianista Amílcar Vasques-Dias, De Ouvido e Coração, Celebrando José Afonso. Indicava também a interpretação de uma cantora de flamenco, de um fadista e de dois cantores líricos. Acedi a uma dessas plataformas onde se aluga música e procurei o álbum. É o que estou a ouvir, enquanto não chega a hora de almoço. Estas metamorfoses musicais nem sempre correm bem, mas esta, parece-me, encontrou o ponto exacto onde estilos musicais bem distintos se podiam encontrar. Bastante interessante é a interpretação de Cantar Alentejano e Canção de Embalar pela cantora de flamenco Esther Merino. Uma descoberta no último dia de Abril, um dia solar, mas ventoso, como constatei quando fui à rua.

sábado, 29 de abril de 2023

Livros e status

Ida ao aeroporto buscar alguém, almoço em Lisboa, retorno ao lar, doce lar, à cadeira do escritório. Depois de uma semana tensa, o que me apetece mesmo é dormir. Este apetite pelo sono, todavia, não é partilhado pelo corpo, ou pelo cérebro, caso este não faça parte do corpo, pois quando chega a hora de dormir, com ela vem, velada sabe-se lá por quê, a insónia. Nessas alturas, que não são poucas, aproveito para adiantar leituras. Há pouco, em viagem, ouvi, na Antena 2, que a civilizada Coreia do Sul é um dos países do mundo onde menos se lê, apesar de ser um país tecnologicamente avançado e onde as pessoas mais usufruem das novas tecnologias. O comentador, alguém cujo nome esqueci, mas que falava em castelhano, não via no facto um problema. Não estabeleceu uma correlação entre o uso das novas tecnologias e o baixo índice de leitura. Pelo contrário, sublinhou os progressos que o país está a fazer para trazer a leitura para a vida das pessoas, dando a entender que ler não fazia – e ainda não faz – parte da cultura daquele país. Se isso se passasse em França, acrescentou, seria grave, pois era a marca de um retrocesso. Talvez nós, ocidentais, tenhamos sido vítimas de um fetichismo, o dos livros. Havendo pessoas que decoram estantes com livros, ou mesmo com simulacros de livros, movidas pelo encantamento em que caíram. O encantamento seria o de um suposto estatuto social que, contra qualquer evidência, o livro daria. Os livros nunca deram status. O que acontecia era que, em tempos, tempos longínquos, as pessoas que tinham status também tinham livros. Ora democratizar o livro não implica a democratização do status. Este, por natureza, não é democratizável, pois o seu fundamento é a diferenciação, a distinção, mesmo que esta se deva a coisas que pouco ou nenhum sentido tenham. Imaginemos uma pessoa que cria canários pelo prazer de os contemplar, de cuidar deles, de ver florescer as linhagens. Ninguém alcança status a criar canários. Quem gosta verdadeiramente de livros não é diferente de um criador diletante de canários. Gosta de os contemplar, de os ler, de ver florescer as múltiplas linguagens que ali se encerram, mas isso não acrescenta um grama ao seu status social, felizmente.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Espíritos

Um dia para esquecer. Os motivos, omito-os. Também o clima não ajudou. Quente e abafado, com o corpo a pedir chuva, literalmente, ou mesmo uma boa trovoada. Subia com a lentidão do trânsito o viaduto e ia ouvindo a Antena 2, como é hábito. Uma peça musical para oboé, salvo erro. A certa altura pensei que toda a arte é um trabalho sobre a matéria, mas não sobre a materialidade da matéria. O artista trabalha a matéria para que se revela o espírito que ali se oculta, para manifestar a espiritualidade da matéria. Esta ideia fez-me sorrir, enquanto contornava uma nova rotunda e já me encaminhava para outra. Depois, pensei em Hegel, na sua tese de que a arte é uma forma sensível de manifestar o espírito, a ideia, mas este é o pensamento de Hegel e não aquilo que eu tinha pensado. Não se trata de um espírito absoluto a caminho de si mesmo, mas de espíritos particulares que estão presentes num bloco de mármore, na combinação de uma certa tela e da tinta que a vai tingir, na conjugação de ondas sonoras, ou de corpos que lutam contra a gravidade. Ao estacionar o carro, percebi que estava perto do politeísmo ou então de uma certa forma de angelologia. No elevador, ocorreu-me que, por exemplo, num certo bloco de mármore estão contidos inumeráveis, senão infinitos, espíritos, mas a limitação da arte humana só consegue revelar um. A consequência é que toda a arte é um exercício de homicídios espirituais. Nisto é muito idêntica à reprodução sexuada. Por cada espermatozóide que atinge a meta, morrem milhões com todas as suas infinitas potencialidades. Agora que estou sentado e escrevo tudo isto, constato que o dia não está a melhorar. Daqui a pouco irei fazer a caminhada diária, mas o ar pegajoso que adivinho nas ruas deixa-me relutante.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Uma viagem em verso e meio

Quase no início da quarta elegia de Duíno, Vasco Graça Moura traduz verso e meio de Rilke assim: Não somos unos. Não nos coordenados / como aves migradoras. (…) A primeira pessoa do plural gera uma feliz ambiguidade. Quem não é uno? Quem não se coordena como as aves migradoras? Será a espécie humana o referente desse nós? É verdade que entre os homens reina sem parar a discórdia, o diferendo, a desavença, que a aliteração sublinha e intensifica, e que são o sinal da falta de coordenação e de unidade. Esse nós, todavia, pode ser um plural majestático, uma referência ao eu, a uma alma desavinda consigo. Serei eu que não sou uno, nem me coordeno como se coordenam as aves migradoras. A ambiguidade, porém, não termina aqui. Esse nós, que no original está expresso, pode ser, ao mesmo tempo, um eu e um nós. Todos os eus sofrem da falta de unidade e de coordenação consigo mesmos e por isso constituem um nós. O que introduz mais uma ambiguidade. Nós, seres humanos, estamos coordenados e unidos na falta de unidade e coordenação que cada um sofre. O que nos une é a desunião. O que nos coordena é a descoordenação. Da primeira à terceira interpretação das palavras de Rilke, ou da tradução de Graça Moura, passamos da sociologia à ontologia por intermédio da psicologia. Todo o poema – ou todo o verso – é um palimpsesto.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Do quotidiano

Os termómetros, por aqui, chegaram aos 32 graus e Maio anuncia-se com temperaturas na ordem dos 35. A rua estava insuportável, e tudo indica que este estado de coisas é irremissível. Agora, o Verão começa em Abril e prolonga-se por dentro de Outubro, até quase Novembro. A sensação que paira nos ares é de que ninguém quer saber, como se as pessoas se entregassem a uma lógica evolucionista, em que os mais aptos se adaptarão às novas circunstâncias, e não há ninguém que se sinta excluído do grupo dos mais aptos. Ou talvez se espere um milagre que resolva aquilo que parece não ter solução. Um milagre sobrenatural ou criado pela ciência. Ouvi esta conversa a alguém que se interessa pelo clima, mas não soube o que lhe dizer. Enquanto escutava, pensava em lugares frescos, paisagens de névoa e na água fresca que me apetecia beber. Coisas simples de um exilado climático. O dia prolongou-se e eu perdi-me na azáfama, sem dar conta de algum acontecimento merecedor de narração. A entrada para a auto-estrada estava cortada, o aparato policial indicava haver problema e o trânsito acumulava-se perdido na lentidão. Foi um acidente, disseram-me pouco depois. Mais tarde, encontrei outro, mas já às portas da cidade, embora esta não tenha portas. As que havia na muralha fernandina, que circundava a antiga vila, o terramoto de 1755 levou-as com a muralha. Agora, vivo numa terra desmuralhada, incapaz de opor resistência a mouros ou castelhanos. O Word não gostou de desmuralhada, sublinhou-a a vermelho e propôs emuralhada ou mesmo desmortalhada. Pensei que o processador de texto estava numa fase tétrica. Vou fechá-lo.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Modorrar

O feriado corre dolente, não há vento, as árvores parecem estátuas coloridas, petrificadas pela varinha mágica de algum deus irrequieto e desocupado. A avenida envelhece tomada pelo calor, pelo sol vigoroso de um Abril cada vez mais estival. Voltei ao tema recorrente da meteorologia, do estado do tempo, das peripécias do clima. Na minha secretária repousa o romance Sob a estrela do Outono, de Knut Hamsun. Tinha-o lido em espanhol, e agora que a Cavalo de Ferro o publicou em português vou relê-lo. Contudo, há uma coisa que me preocupa. Esta obra, de 1906, é apenas a primeira de um conjunto denominado Trilogia do Vagabundo. Ora, na edição portuguesa não vejo, em sítio algum, a referência ao facto. Temo que se esqueçam de publicar os outros dois volumes. Já os li em espanhol, mas já que comprei o primeiro em português, gostaria de completar o grupo de romances. Na contracapa do livro é citada a frase de Thomas Mann: Hamsun é o maior escritor de todos os tempos. Talvez Mann exagerasse, mas será um dos maiores, com lugar cimeiro no paraíso dos escritores, embora é possível que o não tenha no dos homens. Isso, porém, é um assunto que não cabe nestas linhas. Vou modorrar um pouco para fazer companhia à tarde, onde o tempo parece ter adormecido, mas nãos haja equívocos, mesmo a dormir o tempo continua a sua caminhada.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Citações

Tenho ideia, uma vaga memória, de que terá sido por um CD de 1994 que entrei no universo do compositor polaco Krzysztof Penderecki. Trata-se de uma recolha de peças, com destaque para Threnody to the Victims of Hiroshima, De Natura Sonoris ou Canticum Canticorum Salomonis. São peças, todas elas, de grande densidade, como se fossem o eco da tragédia que impregnou o século XX. Oiço agora esse CD e penso que, se alguém der por isso, julgará que enlouqueci. Se me acusassem de ter entontecido, eu responderia que era falso e leria alto o poema: Esclarecendo que o poema / é um duelo agudíssimo / quero eu dizer um dedo / agudíssimo claro / apontado ao coração do homem // falo / com uma agulha de sangue / a coser-me todo o corpo / à garganta // e a esta terra imóvel / onde já a minha sombra / é um traço de alarme. Depois de escrever o poema da Luiza Neto Jorge, pensei que não me livraria da acusação, que o acusador haveria de repetir que a minha sombra / é um traço de alarme. E ficaria ele mais alarmado, enquanto a trenódia – ou será tronodia? – se eleva e me toca o fundo do coração, com o qual oiço o canto lamentoso que clama na voz silenciosa dos mortos.

domingo, 23 de abril de 2023

Da posse recíproca

Não li o livro, ainda não o li, mas vejo, em pequenos episódios, o filme que adapta o romance de Octave Mirbeau, Diário de uma Criada de Quarto, com a realização de Benoît Jacquot. Existem outras adaptações, entre elas uma de Jean Renoir e outra de Luis Buñuel. Releio O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, do qual Luchino Visconti fez um grande filme. A obra de Lampedusa foi escrita entre 1954 e 57, a de Mirbeau foi publicada em 1900. De certa forma ambas têm um alvo social preciso, a burguesia. Em O Leopardo é a ironia do príncipe de Salina que pontua a ascensão da burguesia ao poder efectivo na Itália em unificação. Em O Diário de uma Criada de Quarto é o olhar penetrante de Célestine que manifesta a impiedade e corrupção moral de uma burguesia já consolidada em França. O olhar que vem de cima e o que vem de baixo encontram-se no mesmo alvo, vendo cada um deles coisas diferentes, mas que, na verdade, são complementares. O domingo progride sorrateiro, aproxima-se da hora de almoço. Já fiz uma caminhada quase matinal. Nessa viagem, não me lembrei do príncipe nem da criada, apenas de coisas que me vão preocupando, numa rememoração dos últimos dias e numa antecipação dos próximos, caso seja possível antecipar seja o que for. Imagino, neste momento em que uma nuvem cobre o sol, que num outro mundo, seria possível que Fabrizio Corbera, príncipe de Salina, e Célestine, a criada de quarto, se encontrassem como iguais. Aqui poder-se-á fazer entrar as seguintes considerações: Quanto ao comércio natural dos sexos ele tem lugar ou segundo a simples natureza animal (vaga libido, venus vulgívaga, fornicatio), ou segundo a lei. Neste caso, trata-se do casamento (matrimonium), isto é, a ligação de duas pessoas de sexo diferente, que quer, para toda a sua vida, a posse recíproca das suas faculdades sexuais. Talvez esta linguagem explique a razão pela qual Kant, o autor, nunca se casou. Os quatro artigos sobre o direito conjugal (parte da Metafísica dos Costumes – primeira parte: Doutrina do Direito) são todos eles escritos neste registo. Ora, muito mais tarde, o príncipe de Salina, depois da comunicação pelo padre Pirrone de que a sua filha Concetta estava apaixonada, pensou: Amor. Claro amor. Fogo e chamas durante um ano, cinzas durante trinta. De alguma maneira, o comentário meditativo do príncipe acaba por dar razão ao filósofo alemão. O matrimónio nada tem que ver com o amor, mas com a dura gestão das cinzas, isto é, da posse recíproca das suas faculdades sexuais até ao fim da vida. Um problema de gestão de propriedades, digamos. O que para Kant está muito acima do comércio natural dos sexos segundo a simples natureza animal.

sábado, 22 de abril de 2023

Arqueologias

Hoje desloquei-me um pouco mais para o interior, não muito, nem vinte quilómetros, mas o país já é outro. Acabei por almoçar naquele lugar, num restaurante tipicamente de interior. Nada de aparências ou comidas europeias, mas uma casa decente, empregados preocupados com o ofício – isto é, com os clientes – mesas com toalhas e guardanapos de um branco imaculado, uma boa carta de vinhos e uma comida portuguesa bem feita. Os comensais são muito distintos daqueles que se encontram nos restaurantes da moda em Lisboa, por exemplo. Uma burguesia provinciana, em que ainda se nota traços de uma vida rude, mas onde o aroma do dinheiro começa a apagar as cicatrizes dos tempos difíceis. Quanto mais se progride para o interior, maior é o número deste tipo de restaurantes, casas sólidas, de onde não se sai defraudado, pelo contrário. Isto não significa que em Lisboa ou no Porto não existam restaurantes provincianos, com a mesma cultura expressa na carta de vinhos e na qualidade da ementa. Existem e também não se sai defraudado. Contudo, a ambiência trazida pelos clientes é diferente, mais cosmopolita, com menos traços de uma vida rude, talvez por ser mais antiga. Contudo, uma saudade, que os próprios ignoram, leva àqueles lugares como peregrinos de um deus desconhecido. Enchem as mesas como resposta a um impulso arcaico ou para exercerem uma actividade de arqueólogos que, com garfo e faca, escavam memórias ancestrais desconhecidas. Para o que me havia de dar hoje.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Tempo e memória

As previsões concretizaram-se e, neste momento, chove. Uma chuva fina e persistente. A sexta-feira progride indiferente ao estado do tempo. Apesar de usarmos a palavra tempo tanto para a meteorologia como para a duração, as duas coisas ignoram-se ostensivamente, cada uma concentrada na sua sorte e nos seus afazeres. Uma empurrando o presente para o passado, outra distribuindo os estados climáticos de acordo com arcanos que um mortal não decifrará. Para acompanhar uma parte da tarde recorro a um CD duplo com o nome de uma deusa grega, Mnemosyne, de Jan Garbarek e The Hilliard Ensemble. Há muito que não o escutava e hoje caiu-me entre os dedos. Oiço a segunda faixa, O Lord in Thee is all My Trust, de Thomas Tallis. A meteorologia entrega-se a súbitas metamorfoses, mostrando um carácter volúvel. Imagino que possa existir um mundo em que a volubilidade seja uma virtude e não um vício. O título do CD e a fotografia da capa estabelecem uma estreita relação. Vê-se um céu nublado, onde existem nuvens de diversas colorações, do branco brilhante ao chumbo pesado e negro. É isso que é a memória, palavra portuguesa para mnemosyne. Para ser mais fiel, Mnemosyne é a deusa da memória. Deu à luz as musas que superintendem as diversas artes, o que não deixa de ser uma lição. A mãe de todas as artes é a memória, mas elas não se confundem com ela, assim como um filho não se confunde com a sua mãe. Tal como o cântaro vem do barro, mas é outra coisa, também a arte vem da memória, para ser outra coisa. A memória é o barro de toda a arte. Não tarda, tenho de sair e repito-me na composição de uma analogia, talvez para me convencer a mim mesmo.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Paraísos

Desconfio que tenho uma certa fixação em efemérides, pequenas efemérides, daquelas que asseguram a banalidade do mundo e a trivialidade da vida. Hoje, cumprem-se 2/3 de Abril. Daqui até Maio há apenas mais dez dias. Será isto tão relevante que mereça que se lhe dedique alguns segundos? Claro que é, pois toda a existência, e não apenas a humana, é composta por coisas sem importância, mas que são necessárias. Celebro a necessidade neste culto das efemérides que é também um tributo ao efémero. Uma aplicação que me controla o exercício diário veio a terreiro informando-me, não sem benevolência, que, para cumprir as metas diárias, me faltam 742 passos e seis pontos cardio. Penso que talvez, mais logo, quando o calor entrar em depressão, farei os possíveis para satisfazer o aplicativo. Agora, deixo-me levar pela música de Carlo Gesualdo. Nunca deixa de me fascinar a obra deste príncipe de vida negra. Se tivesse de escolher uma época musical, não seria o barroco, nem o classicismo, nem o romantismo, nem a música contemporânea. Instalar-me-ia na música da Renascença e pensaria que tinha chegado ao paraíso. Um paraíso transitório, um oásis entre os tempos antigos e os tempos modernos, onde tudo estava a acabar e tudo estava a começar. Imagino que os paraísos sejam sítios onde, ao mesmo tempo, tudo acaba e tudo começa. Isto, porém, são fantasias de um narrador desocupado.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Crenças

Na barra de tarefas do computador, existe um aviso – melhor, um duplo ou triplo aviso – que me informa de que o sol se está a pôr, o céu está parcialmente ensolarado e estão 22 graus de temperatura. Agradeço a solicitude informativa, mas não sei o que fazer com tanta informação. Estamos imersos num oceano de informações, um mar encapelado onde arriscamos o afogamento. Isto tinha eu escrito antes de ter de sair de casa e deixar a meditação em suspenso. Agora que retornei ao meu lugar, o sol já se pôs há muito e a escuridão desceu sobre a cidade, envolvendo-a numa seda negra rasgada pelos clarões dos faróis e das iluminações públicas. As ruas, ensonadas, entregam-se ao abandono a que os homens as votaram. As acácias da praceta começam a cobrir-se de folhas, num ritmo lento. Os castanheiros da avenida marginal, reparei de manhã, já estão floridos, mas longe do esplendor que costumam atingir. Talvez ainda seja cedo. Para acabar o périplo pelo mundo vegetal, registo que onze das quinze orquídeas já estão floridas. As que faltam também prometem fazê-lo, só que um pouco mais tarde. Voltando à barra das tarefas do computador, sou informado de que estão 15 graus, com o céu parcialmente nublado. E eu acredito.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Viagens no tempo

A criançada ocupa o parque que lhe é destinado. Ouvem-se os gritos, enquanto o vento obriga as folhas do arvoredo a dançar, como se uma flauta humilde ao longe tocasse, talvez para se fazer ouvir nos ouvidos de uma pastora bela. É sempre possível imaginar mundos impossíveis. Talvez imaginados eles se tornem possíveis. Não há pastoras belas, nem não belas, nem estamos em tempos pastoris. Imagino que a verdade acerca desse mundo de pastoras belas e pastores musicais seja tenebrosa, mas sempre se pode sonhar com uma Arcádia, pois tudo o que nos chega da antiguidade perdeu as trevas e a sujidade na viagem para vir até nós. Fazer as coisas viajar no tempo é uma operação de limpeza, pois o tempo é uma escova implacável. Vou à rua ver se chega alguma novidade da Guerra do Peloponeso, uma carta de Tucídides, um fax de Xenofonte.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Uma raposa

Chegou a segunda-feira e com ela a realidade. Como se pode tratar com uma coisa tão intratável como a realidade? Talvez existam duas maneiras possíveis. A da raposa e a do ouriço. Entre mais ou menos 680 aC e 645 aC, viveu na Grécia um homem chamado Arquíloco, nascido na ilha de Paros. Era guerreiro e poeta lírico. Talvez tão famoso, nesses tempos, quanto Homero. É ele que escreve: A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma muito importante. Isaiah Berlin, nos anos cinquenta do século passado, para falar acerca da visão histórica de Lev Tolstói escreveu, inspirado no poeta grego, a obra O Ouriço e a Raposa. Já no século XXI, Ronald Dworkin publica Justiça para Ouriços. Temos um confronto entre duas formas de sabedoria. Aquela que assenta num vasto acervo de informações, a da raposa, e aquela que se funda no conhecimento de uma coisa essencial. Este narrador, tal como o autor o projectou, não passa de uma raposa, ou de um candidato a raposa. Sabe muitas coisas, mas nenhuma fundamental. Uma das suas frases de auto-análise favoritas é: sei uma quantidade enorme de coisas inúteis. Ao que poderia acrescentar: mas não sei nenhuma que valha a pena saber. Ora, como lidar com a realidade quando se tem alma de raposa e não de ouriço? Este é um problema. Outro pode formular-se do seguinte modo: pode a raposa, um dia, tornar-se em ouriço? Aqui entramos em Ovídio, o poeta das Metamorfoses, e na plausibilidade de que uma coisa se transforme numa outra. Consta que os alquimistas acreditavam na possibilidade de o chumbo devir ouro, mas nunca provaram a crença. Será possível, por manipulação genética, transformar raposas em ouriços? Todo este texto, claro, foi escrito no registo da raposa ou, para ser mais exacto, de candidato a raposa. Ninguém pode deixar de ser o que é.

domingo, 16 de abril de 2023

Sol de domingo

Quando, de manhã, fui à rua, perguntei-me por onde andariam as águas mil que rimam com Abril. Claro que não me dei resposta, e ninguém veio em meu auxílio. Pelo contrário, os transeuntes desfilavam pimpões vestidos de Verão, esquecidos de que deveria chover para amenizar o clima, encher as barragens e evitar os incêndios. Ninguém quer saber disso, pensei. Depois, caí em mim, fui tocado pela humildade, e reconheci que também eu era um refinado egoísta. Só me lembrei das águas mil, porque o calor me perturba, como se eu tivesse nascido num clima frio e nebuloso e não aqui. O mal do mundo está em que há muito mais pessoas a favor do tempo quente do que do tempo frio. Por isso, não se importam com o aquecimento global. Este assunto, porém, está fora das cogitações do narrador desta gesta, um cavaleiro andante do arrefecimento global. A Primavera, por estes lados, está animada. Os pássaros não se calam, as árvores vão-se cobrindo de uma folhagem verde e vibrante, batida pelo vento, num processo aliterativo, e, por certo, haverá, por essas terras fora, gentes cujo coração foi tocado pela flauta mágica do amor. O que me impressiona, porém, é que o brilho do sol tem o selo dominical. Como todos sabem, e se não sabem deveriam sabê-lo, o sol brilha de maneira diferente aos domingos. Não conheço as razões, mas já constatei o facto. Há nesse brilhar vibrante uma melancolia inextinguível, coisa que não acontece nos outros dias. Poderia dedicar-me à abdução para estabelecer um conjunto de hipóteses científicas que explicariam o fenómeno. Contenho-me, horrorizado, ao descobrir que a palavra tem significado não apenas lógico, mas também anatómico e, pasme-se, ovnilógico. Neste caso, trata-se da gesta de pessoas que foram raptadas – abduzidas – por extraterrestres. Para a próxima vez não usarei o termo abdução, mas raciocínio abdutivo, o qual suponho, não terá ligação à anatomia e, muito menos, à ovnilogia. Hoje, porém, deixo o caso em suspenso e vou tratar da vida noutro lugar.