terça-feira, 30 de junho de 2020

Nada de sedições

Ir às compras é um filme, como agora oiço dizer, talvez porque se suspeita no acto todo um enredo do qual se espera um desenlace feliz. Noutros tempos talvez se dissesse é um romance, mas as pessoas só lêem livros de auto-ajuda, como se quisessem descobrir em si o poder de uma graça que as salvasse. Os compradores deambulam pela superfície comercial mascarados, mantêm distâncias, tentam descobrir quem se esconde por detrás de uma máscara, se é alguém conhecido, um Pierrot ou uma Columbina, se àqueles olhos corresponderá um rosto adequado, se saberá usá-la, aumentando em muito as possibilidades especulativas de quem por ali é obrigado a andar. A chegada a casa também é um filme, mas tão cansativo que ninguém o quererá ver. Hoje passarei a tarde em videoconferências. A necessidade é uma deusa cruel, à qual nunca podemos furtar-nos a pagar o tributo. Recebi um email do padre Lodo, aquele jesuíta de que falei ontem. Padre Lodo é assim que ele é conhecido na Companhia e entre amigos, mesmo os que são pouco dados ao catolicismo, amigos esses que ele cultiva com esmero, não sei se com a esperança de os converter. Sempre é um jesuíta. Quer jantar comigo em Lisboa, para que eu conheça um antigo aluno dele, um alemão de nome Hans Castorp. Não o esperava tão cedo em Portugal, ainda ontem não sabia que ele vinha, escreve como se se desculpasse. Que não me preocupe, ele fala muito bem espanhol e entre português e espanhol haveremos de nos entender. Eu não me preocupo, mas não me apetece ir a Lisboa, não me apetece todos estes rituais concebidos por um génio maligno. Pensarei no assunto. Não vejo as netas há semanas e talvez deva aproveitar a ocasião. Logo hei-de responder. Os termómetros começam a subir por estes lados. O calor penetra na pele e sinto-a rasgar, abrir pequenas fendas que se vão dilatando, para que o corpo se torne uma chaga viva. Se as pessoas não fogem daqui, não tarda haverá procissões de ulcerados. Recuso-me a fazer de calendário, quero lá saber que dia da semana ou do mês é hoje. O tempo é um contínuo sem fim e todas as divisões que lhe inventamos são uma sedição contra a ordem natural do mundo, a qual, pelo menos hoje, prezo muito. Amanhã, se verá.

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