O carrocel do ano começou uma nova viagem. Estas jornadas têm sempre o mesmo objectivo, chegar ao fim e dar de imediato sinal de partida para outra. Síndrome iterativo do calendário seria um nome excelente para esta patologia. Se fosse uma expedição sem destino marcado não se saberia onde seria a meta. Contudo, esta viagem nunca é isenta de surpresas, e quanto a estas, como se sabe, o melhor é não as haver, pois o saldo entre as boas e as más tende a ser desvantajoso para o surpreendido. Esta visão das coisas, em particular do calendário e da doença que existe no seu ser mais íntimo, é uma ontologia pessimista, o que fica sempre bem ostentar, ao modo de emblema, na lapela, como certos políticos por esse mundo fora usam, para enfeitar, a bandeira pátria na banda do casaco, provavelmente porque não a sentem no coração. Alguns argumentam que ter a pátria no coração desequilibra o ritmo cardíaco e pode causar um enfarte do miocárdio. Isto, porém, não são contas do rosário deste blogue, cujo narrador – eu – está proibido pelo autor – um tirano sem nome – de derramar a sua verve, enorme e sábia, sobre assuntos políticos. E como narrador timorato, receia, temente e tremente, que uma constatação dos costumes da tribo seja tomada como incursão em território vedado. Por isso, recua rapidamente, antes que os guardas-fronteiriços disparem à queima-roupa e passe de narrador vivo a narrador morto, o que, para ser rigoroso, é uma impossibilidade ontológica: se se está morto, não se narra seja o que for; se se narra alguma coisa, então não se está morto. Embora muitas narrativas, incluindo as deste espaço, tenham menos vida que aquela que existe num morto. Este primeiro texto do ano não augura nada de bom. Não em relação ao mundo ou mesmo ao calendário e às suas patologias, mas aos textos que poderão vir. O problema reside no desacerto entre narrador e autor. Jogam em clubes diferentes, votam em partidos diferentes, até casaram com mulheres diferentes. Eu bem queria que estes textos fossem o meu Livro do Desassossego. Quase que adopto o nome de Bernardo Soares, mas o autor, cujo talento é ridículo, tem a honestidade de não se fazer passar por Fernando Pessoa. Disse-me um dia, à laia de desculpa, que odiava o nome de Fernando, que está grato aos pais por lho não terem posto, e quanto ao apelido Pessoa é uma coisa equívoca, por causa das ressonâncias com o pronome indefinido personne francês – ninguém – e com a persona grega – máscara. Que para mascaradas basta o que basta, acrescentou ele, sem que eu tenha percebido o que queria dizer com aquela frase enigmática.