quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Dias nefastos

Os dias estão cada vez mais pequenos, mas a azáfama prolonga-se para lá das horas de luz natural. Depois, num email, a notícia da morte de alguém que se conhece há muito. De seguida, o telefonema de um amigo. Eh pá, estou com cancro de próstata, a biópsia deu positivo. O leque dos possíveis, a contabilidade das hipóteses. Depende, de haver ou não metástases. E o que se pode dizer numa situação destas? Envelhecer também é isto. Ver o que acontece com os outros e ficar à espera que chegue a hora de termos más notícias, sem nada de relevante – isto é, de salvífico – para dizer aos outros e a nós mesmos, se e quando for o caso de as notícias indesejadas serem a nosso respeito. Para completar, uns malditos papéis a preencher para as finanças, mas faltam papéis do banco, que já deveriam ter chegado e não chegaram. E em nada disto há metafísica, por mais que a morte, a doença e a burocracia nacional – uma doença mortífera que nos corrói – gerem meditações metafísicas. A melhor coisa do dia foi o brownie de chocolate preto que comi no café aqui ao lado, esse, sim, pleno de metafísica, pois não há outra metafísica senão a de comer chocolates.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Inclinações poéticas

Uma das obras do filósofo alemão Peter Sloterdijk tem, na tradução portuguesa, um belo título: Palácio de Cristal. Contudo, quando se procura o título alemão, para nosso desgosto, não encontramos nem palácio nem cristal, apenas um prosaico Im Weltinnenraum des Kapitals. Mesmo para alguém que não sabe alemão, como é o caso deste narrador destituído de narrativa, percebe-se que por ali está a ideia de capital (Kapitals), de mundo (Welt), de espaço (Raum) e de interior (innen). Imagino que seja difícil traduzir Weltinnenraum. O que se passa, porém, é que Portugal é um país de poetas, e os nossos tradutores são poetas em exercício. Esse interior do espaço mundial – ou será do espaço-mundo? – do capital, uma realidade, por certo, bem prosaica, é trocado por uma metáfora: o Palácio de Cristal, autorizada, claro, pelo conteúdo da obra, o título do capítulo 33. Quem olha para a designação alemã fica com uma ideia do que trata a obra. Quem olha para a tradução portuguesa, mesmo com a ajuda do subtítulo Para Uma Teoria Filosófica da Globalização, não sabe bem o que tem pela frente. Talvez isto explique a razão por que os alemães têm uma economia forte e os portugueses têm a que têm. Contudo, há razões para contrariar o meu comentário. A obra de Sloterdijk, esta mesma, está recheada de metáforas, uma ânsia poética em espírito filosófico. Ora, a filosofia, tal como a conhecemos, começou, de facto, com a dupla Sócrates-Platão, e este, para se tornar discípulo do primeiro, teve de rasgar o seu trabalho poético, as tragédias que teria escrito. No Fédon, Platão põe na boca de Sócrates, horas antes de este tomar o veneno, a ideia de que os poetas fazem ficções e os filósofos argumentos. A partir daí o campo ficou dividido, e, mesmo dentro de um palácio de cristal, não será boa ideia ficcionar quando se trata de argumentar. Esta é a minha opinião de hoje. Amanhã posso ter uma contrária. Cada dia com o seu mal.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Metamorfoses

Leio os versos: A nado, na entrada, por um quinto degrau, / acede-se ao algibe. Análoga série de subida / guiando-nos a um cubículo iluminado por cera, / miradouro de sedação, cerimonial gongo de zinco. Pertencem a um poema de Joaquim Manuel Magalhães. O poeta, já bem entrado na idade, quase que renegou toda a sua obra poética. Condensou-a, drasticamente, em Um Toldo Vermelho, publicado em 2010. Em 2018, publicou Para Comigo. O poema citado pertence a Canoagem, de 2021. Tudo editado pela Relógio d’Água, uma das editoras portuguesas com melhor catálogo, embora isto de melhor e de pior dependa do gosto do leitor. Eu sei que esta posição é relativista – melhor, subjectivista – mas, mesmo que exista um critério universal e indiscutível para medir as escolhas estéticas das editoras, ninguém o conhece. Esse desconhecimento, submete este tipo de avaliações ao que agrada ou desagrada a cada um. E se eu oferecer um critério sólido, logo aparecerá alguém a oferecer outro critério tão sólido quanto o meu. Perdi-me. Citei o poema e entrei por critérios de avaliação estética, digamos assim. O que me trouxe à citação do poema foi uma palavra, algibe. Uma palavra de origem árabe – a mesma origem de aljube – e que significa cisterna. Ora, desconhecia a palavra. Ela obrigou-me a ir ao dicionário e o excerto ganhou outro sentido. O efeito poético reside não numa metáfora cintilante, mas na raridade do uso de uma palavra. O estranhamento pode existir na própria literalidade, basta o recurso a um termo em desuso. A escolha de algibe, por outro lado, acaba por estabelecer uma ligação semântica com aljube. O árabe al-jubb não significa prisão, mas cisterna. O que aprendemos, então, é que toda a cisterna se pode transformar num cárcere. O mundo está cheio de metamorfoses.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O que me preocupa

Esta facilidade comunicacional não traz nada de bom. Que o diga a minha neta mais nova: a mais de cem quilómetros de distância, está sob fogo intenso. Consta que vai ter um teste de qualquer coisa — não sei se de Geografia ou de Física — e a avó não lhe dá um minuto de descanso. Ela que acorde, que leia a questão, que oiça. Imagino as caras que fará. Tenho de procurar um restaurante que tenha alguma coisa que lhe agrade para a levar no fim-de-semana, pois vem para cá continuar a saga do estudo. Na semana que vem, terá quatro testes. De facto, a escola é uma fonte de infelicidade inominável. Penso, não poucas vezes, que nunca recuperei do choque de, num dia oito de Outubro, uma segunda-feira, ter nela entrado. Tenho, claro, uma alma inclinada para a irresponsabilidade e levei quase toda a minha vida a disfarçar-me de pessoa absolutamente consciente dos deveres. Se enganei os outros — o que me parece plausível —, nunca me enganei a mim. Nunca acreditei na minha responsabilidade. Fazia o que tinha de fazer, mas sem qualquer fé no sentido daquilo que fazia. Ora, a entrada na escola é o momento em que uma alma livre se submete para sempre aos imperativos soturnos do princípio de responsabilidade. Entra-se nesse campo minado e nunca mais se sai de lá, mesmo quando a escola ficou já bem para trás. A minha neta resiste, mas acabará por se submeter. O que me preocupa, porém, é descobrir um restaurante por aqui que ela ainda não conheça.

domingo, 24 de novembro de 2024

Melancolias

Uma coisa é a melancolia de domingo; outra, bem diferente, é um domingo melancólico. A melancolia de domingo é um sentimento subjectivo que invade os mortais quando o fim-de-semana se aproxima do fim, e a realidade, com os seus imperativos, se anuncia nos dias úteis que estão a bater à porta. Um domingo melancólico é, por seu lado, uma propriedade objectiva de certos domingos, e é independente dos sentimentos que possam ou não invadir os seres humanos. Este domingo tem sido objectivamente melancólico. Só o descobri quando saí de casa e me pus a caminho de uma certa aldeia deste concelho, onde os agricultores vendem as suas laranjas. As últimas que lá comprara eram óptimas. Combinavam a doçura característica da laranja da baía – será que ainda se chamam assim? – com um toque de acidez dado por serem temporãs. Ora ao ir e ao vir, reparei que a paisagem era ostensivamente melancólica. O cinzento do céu, o ar outonal das árvores, a quietação dos campos, tudo isto era a manifestação de um domingo tomado por uma melancolia que provinha da sua própria natureza. Essa melancolia dominical reflectia-se em mim num moderado contentamento, numa vontade de caminhar e de respirar o ar dos campos. Como disse, o contentamento era moderado, pois o caminho foi feito de carro; a venda das laranjas ainda dista alguns quilómetros de casa. Com a vinda da noite, a melancolia do domingo desapareceu, restando apenas umas horas para que chegue uma nova segunda-feira.

sábado, 23 de novembro de 2024

Alienação

Li as primeiras páginas de Caruncho, o primeiro romance da espanhola Layla Martínez. É uma escrita poderosa e sem contemplações, onde o recurso à imaginação se combina com a crueza narrativa. Há nela um pacto entre a força da juventude e a maturidade nascida de uma vida tensa. Pouco sei da autora. Nasceu em 1987 e o romance foi publicado em 2021. Teria 34 anos, na altura. Não sei se aquilo que li é uma transformação literária de uma biografia ou o resultado de uma imaginação poderosa. Não quero saber. Gosto de conjecturar uma completa dissociação entre a vida do escritor e a obra que produz. O ideal seria que alguém criasse obras completamente desvinculadas da sua experiência de vida e da sua personalidade. O autor morreria ao escrever. Platão, através do inevitável Sócrates, dizia que filosofar é aprender a morrer e a estar morto. O mesmo se pode pensar para a arte: vê-la como modalidade de morte do artista na produção da obra. Morrer, neste caso, significa apagar os traços biográficos do autor, torná-lo ausente da sua obra, deixar que esta, sendo sua produção, seja autónoma em relação ao produtor. A arte não é, assim, a expressão de uma subjectividade, mas um acto de estranhamento, a produção de uma alteridade radical, uma modalidade de alienação. Isto, porém, implicaria um domínio tal dos mecanismos da língua, no caso da literatura, e dos artifícios da poética – que apenas estariam ao alcance de um deus ou de um anjo. E, como sabemos, nem deuses nem anjos se interessam pelas práticas artísticas que inflamam o coração dos homens. De alguns, claro.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Esperemos

As sextas-feiras sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. Mal acaba uma, já estamos a entrar noutra, como se o resto da semana não fosse mais do que um interlúdio entre elas. Esta modalidade de abolir o tempo entre dois pontos é uma luta contra Cronos, o devorador dos filhos. Dito de outra forma, é parte da revolta contra os titãs, um episódio da titanomaquia. Os mitos gregos assinalam a derrota de Cronos, mas há um equívoco, pois continuamos a guerra contra ele e, até hoje, ainda não saímos vitoriosos. Para tudo haverá um Kairos, um tempo oportuno. Também para liquidar Cronos e matar, de vez, o tempo, haverá um Kairos: uma hora decisiva em que o nosso inimigo não resistirá. Só que essa hora é desconhecida e não vale a pena planeá-la ou pensar nela, pois não se deixará apanhar nas redes dos nossos planos nem nos ardis do nosso pensamento. Apresentar-se-á furtiva como uma sombra e rápida como um raio. Se houver alguém que a perceba, será o novo Teseu ou, para ser mais preciso, o verdadeiro Teseu, pois o Minotauro não é outro senão Cronos, esse tempo que nos devora. Esperemos que encontre a sua Ariadne.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Metanatureza

Os dias continuam a empequenecer, o que implica o engrandecer das noites. Sim, podia ter dito diminuir e crescer, mas perderia o efeito de compreender que os dias estão cada vez mais pequenos e as noites cada vez maiores. Algo ou alguém pode diminuir e, mesmo assim, ficar grande. Também é claro que certas pessoas, por muito que cresçam, não deixarão de ser pequenas. Não me estou a referir à altura. Pergunto-me pela razão que levou a natureza a dispor assim os dias e as noites. Não procuro uma explicação física, mas uma elucidação metafísica. Talvez a natureza temesse que uma distribuição igualitária das horas pelo dia e pela noite, durante todo o ano, acabasse por encher de tédio os seres humanos. Preocupada com isso, decidiu que a distribuição das horas do dia pela luz e pelas trevas seria feita de forma progressiva, que é, ao mesmo tempo, uma forma regressiva. Repare-se: o tormento metafísico da natureza não foi a igualdade – pois a distribuição acabará por ser igualitária – mas o tédio que uma igualdade distributiva contínua e à outrance provocaria. Podem dizer que a natureza é despida de metafísica, que não há mais metafísica do que comer chocolates. A favor poderão, inclusive, chamar a atenção para a palavra física que é a tradução de um termo grego – Φύσις – que significa natureza. Ora, se uma natureza não contiver em si mesmo aquilo que vai para além dela, uma metanatureza, então é uma natureza deficiente, amputada daquilo que a leva a ir para além de si mesma. Dessa metanatureza faz parte ter intenções, preocupar-se com o tédio das espécies que gerou na humidade do seu ventre. Toda a mãe é mais que uma mãe. Por que motivo a natureza seria uma mãe que não era mais que uma mãe? Chega por hoje. Já iluminei, com revérbero cintilante, de modo mais que suficiente a humanidade. Não posso esgotar num simples texto os recursos que a natureza, na sua generosidade, me distribuiu.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Inclinação para cair

A Antígona Editores Refractários está a publicar uma pequena colecção de cinco livros, Sementes de Dissidência, um projecto apoiado pelo programa Europa Criativa, da União Europeia.  Desses cinco, já li dois – Niels Lyhne, de Jens Peter Jacobsen, e A Parede, de Marlen Haushofer – e comprei, hoje, um terceiro, A Pequena Comunista que Nunca Sorria, de Lola Lafon. Ora, a pequena comunista é uma figura real. Trata-se da ginasta romena Nadia Comaneci, que, como se sabe, acabou por sair da Roménia. Lembro-me de, há quase 50 anos, ela, nos seus ingénuos 14 anos, surgir como uma heroína. O romance de Lola Lafon, imagino, tratará do exuberante triunfo da adolescente romena, do modo sufocante como terá sido produzido e da queda posterior, pois tudo o que sobe terá de cair. A queda é um dos temas centrais, senão o tema central, da arte do romance. O interesse pela queda é muito anterior ao romance moderno. Basta lembrar a história de Ícaro. Contudo, a queda que sobre nós ocidentais exerce um maior fascínio é a de Adão e Eva. Podem estabelecer-se, sem dificuldade, pontos de contacto entre as duas quedas. Contudo, aquela que nasce na tradição judaica tem a particularidade de ser uma queda dupla, a de um homem e a de uma mulher, o que significa que não se trata de um episódio de alguém que ultrapassa a sua medida, mas de uma marca da própria humanidade. Não somos apenas seres decaídos, como uma leitura religiosa sublinhará, mas seres cuja natureza é cair. Nadia Comaneci era exímia na sua luta contra a gravidade, mas nela, como em todos nós, havia uma inclinação para a queda. E é esta inclinação que habita a imaginação romanesca. Sem esta inclinação, a literatura romanesca não teria sentido.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Individualidade

A certa altura, no diálogo que mantém com Adimanto, na República, de Platão, Sócrates diz: É então lógico, segundo me parece, que a melhor natureza, alimentada de modo diferente do que lhe convém, se torne pior do que uma natureza medíocre. Adimanto, claro, concorda. Sócrates está a falar de quê? Por natureza está a referir o ser humano e por alimento, a educação. Isto significa que cada um dos seres humanos tem grandes hipóteses de ser medíocre ou ainda pior do que isso. Se nasce com uma natureza medíocre, a educação não fará que ele deixe de ser o que é. Se nasce com uma boa natureza, ainda assim nada está assegurado. Pelo contrário, corre até mais riscos do aquele que é medíocre, caso não encontre uma educação à altura da sua natureza. Em ambos os casos, a pessoa não é responsável por aquilo que é. Ninguém determina a sua própria natureza, nem, em última análise, é responsável pela educação que recebeu. Se alguém é excelente isso deve-se a uma feliz coincidência de se receber ao mesmo tempo uma natureza boa e uma adequada educação. O mérito do indivíduo não entra nesta equação, da qual também está ausente a própria individualidade. Agora, que tanto se vilipendia os tempos modernos, talvez fosse boa ideia perceber que a individualidade, que assinala o nascimento desses tempos, foi uma grande descoberta.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Disciplina da escuta

Uma das doenças que corrói as nossas sociedades ocidentais está ligada à morte daquilo a que poderíamos dar o nome de disciplina da escuta. Aprender a escutar, permanecer em silêncio perante a voz do outro, conter o impulso para tomar a palavra, todos esses dispositivos de formação de humanidade tornaram-se obsoletos, perderam prestígio e encontram-se a caminho de um museu, onde se exibem coisas destituídas de sentido. Ora, a disciplina da escuta não visa apenas aprender a escutar a voz do outro, embora isso seja fundamental, mas encontrar, no saber fazer silêncio em si mesmo, a possibilidade de escutar a sua própria voz. A proliferação opinativa a que as redes sociais deram origem inscreve-se já como um efeito da perda da disciplina da escuta. Quando se aprende a escutar o outro, é-se menos propenso a tratá-lo mal e mais inclinado a moderar a própria opinião, pois o acto da escuta tem o poder de revelar a fragilidade das nossas opiniões. Quando nunca se aprendeu a escutar, então toda a ignorância que nos habita se toma por certeza, uma certeza tão absoluta que deve ser imposta aos outros nem que para isso tenhamos de os esmagar. Terá sido em casa, no ambiente familiar, que a disciplina da escuta terá começado a morrer. Daí, a doença ter-se-á propagado para os sistemas educativos, a partir dos quais a sociedade como um todo foi contaminada. Contudo, nenhuma palavra terá sentido e profundidade se não estiver ancorada numa longa disciplina da escuta. As palavras que se ouvem, não são palavras. São gritos articulados em forma de linguagem. Só isso.

domingo, 17 de novembro de 2024

Caricatura

O fim-de-semana está gasto. Restam uns farrapos que se irão desfazendo até à meia-noite. Nesse instante, entrar-se-á na semana útil, mas, como a realidade é ardilosa, as vítimas só darão por isso lá pela manhã. Tarde demais para travar o tempo e prolongar a inutilidade por mais uns dias. Oiço o choro de uma criança. Aliás, uma especialista em submeter os pobres pais através da técnica da birra prolongada. Eles, os pais, avançam de derrota em derrota. A criança sabe bem quem manda e parece nunca se fazer rogada. Isto, porém, são palavras de quem pertence a outro país. Refiro-me à famosa frase de Leslie Poles Hartley: «O passado é um país estrangeiro; lá, eles fazem as coisas de modo diferente». É a esse estranho país – o passado – que pertenço, e lá, posso confirmar, as coisas faziam-se de modo bem diferente. Quando chegam ao presente, aqueles que pertencem ao passado ficam perdidos. Não conhecem a língua, nem os hábitos e têm dificuldade em perceber as acções. Os autóctones, porém, não querem saber daquilo que pensam os estrangeiros. E muita sorte têm estes em não serem deportados em massa para o seu país de origem. Talvez as coisas tenham começado quando um grupo de rock se pôs a cantar: «Hey! Teacher! Leave them kids alone!» Então, as crianças, para treinar o enfrentamento escolar, exigiram que os pais as deixassem em paz. E estes, formados na música do tal grupo de rock, estão a deixar. Dir-se-á que isto é uma generalização precipitada, uma maldita falácia que persegue os raciocínios indutivos. É um ponto de vista. Um outro, que prefiro no dia de hoje, diz-nos que é uma avaliação hiperbólica que se torna uma caricatura. Ora, a virtude da caricatura, ancorada no recurso à hipérbole, é dar a ver aquilo que não salta à vista.

sábado, 16 de novembro de 2024

Consolação

Amareleceram as folhas das acácias do parque. Diria que amareleceram bem, como quando se diz que alguém envelheceu bem. Ainda se nota a metamorfose, pois o manto amarelo deixa ver folhas verdes. Não é um amarelo como o do limão; é mais escuro, como se, no fundo de si, ainda restasse uma gota de sangue. Olho-as e deixo-me levar pela cadência com que o vento as move para um lado e para o outro. Muitas pessoas sofrem de tédio, mesmo que tenham de usar palavras como spleen para enquadrar o fastio que as devora. Ora, se deixassem os seus olhos poisar sobre as árvores e observassem, com atenção, o movimento das folhas, recobrariam do enfado e da náusea com que cobriram a existência que lhes foi oferecida. Não poucas pessoas pensam que uma vida digna de ser vivida deve decorrer num vórtice, num culto da energia e numa liturgia do dinamismo. Isso, porém, é apenas o resultado de uma impotência estrutural: a incapacidade de se deter e contemplar aquilo que se oferece ao olhar. Ao demorar o olhar sobre as acácias, estou a receber uma dádiva. Essa demora é um exercício de reciprocidade: uma dádiva que responde à primeira. O culto do entusiasmo e da velocidade é a confissão de uma incapacidade para receber e para dar, pois, assim como tenho um secreto prazer em olhar o amarelo das folhas das acácias, também elas têm um consolo não menos secreto em serem olhadas. Sim, também as árvores precisam de consolação.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Devorações

A primeira metade de Novembro está cumprida. Também o conjunto musical da escola aqui ao lado realizou o seu ensaio. São músicas arcaicas. Imagino que o grupo seja composto por professores reformados, mas é apenas uma suposição. Ou será uma banda animada por um professor de História que esteja a pesquisar a música dos anos sessenta e setenta do século passado? É possível. Também nestes ensaios há um antes e um depois da pandemia. Até à emergência da COVID-19, os ensaios eram às quartas-feiras. Agora, são às sextas. Talvez tenha sido por eles ensaiarem às quartas que se desencadeou aquela doença tenebrosa que caiu sobre o mundo. Estas coisas nunca se sabem, e a generalidade do que acontece tem causas insuspeitas. Se tiver sido esse o caso, ou mesmo que não tenha sido, foi sensata a mudança do dia de ensaio. Não vá o diabo tecê-las e mande nova pandemia. Isso mostra que o grupo musical tem capacidade de ler os sinais e aprender com o que acontece, mesmo se os progressos musicais não sejam, ao longo dos anos, coisa de assinalar. Isto é outra suposição, pois não sou crítico musical. Quando comecei a escrever este texto, a noite estava perfilada, ao longe: hirta, pronta para marchar. Agora, já oiço as suas botas cardadas. Ela aproxima-se com um passo cadenciado e firme. Não tarda e devorará o crepúsculo, que é coisa que as noites gostam muito de fazer pela tardinha. Para se vingar, o crepúsculo devorá-la-á, para que chegue a aurora. É triste, mas a vida não passa de uma cadeia de devorações, como se sofresse de um transtorno crónico de compulsão alimentar. Na avenida, os carros seguem a luz dos seus faróis, e as pessoas passam rápidas para desaparecer do meu horizonte — um horizonte limitado.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Falar do tempo

O Outono vestiu as roupas do Inverno e, agora, distribui frio e chuva pelas ruas. Oiço uma voz feminina a queixar-se: ainda ontem saí à rua de manga curta e hoje já tive de me vestir como nos dias frios. As pessoas falam do tempo para terem assunto — um tema nobre que não implica dizer mal do próximo. Também eu falo do tema por falta de assunto, embora não faltem assuntos nobres, mesmo nobilíssimos, para discorrer. Será que o centauro existe ou é apenas um nome? Outro, não menos nobre: os buracos — por exemplo, os buracos de um queijo — existem? Uma outra possibilidade seria escrever sobre se existe uma coisa como a vermelhidão ou, ainda mais interessante, sobre se existe uma realidade denotada pela palavra humanidade. De todos estes assuntos, o que me interessa mais é o centauro, a que poderíamos associar a sereia e todos os seres desse género. Chamei-lhes seres, e isso pressupõe já um compromisso ontológico, isto é, a afirmação de que têm alguma forma de existência e não são puros nomes. Há quem pense, por exemplo, que esses seres têm uma existência potencial. Não existem actualmente, mas podem vir a existir; podem passar da potência ao acto, para usar o jargão de Aristóteles. Não partilho deste ponto de vista, pois estará fundado numa analogia sem fundamento. Imaginemos o projecto, desenhado por um arquitecto, de uma ponte sobre o rio desta terra onde me acolho. O projecto será a ponte em potência; a construída, a ponte em acto. Ora, não me parece plausível tomar o centauro ou a sereia como projectos, seres potenciais que dariam lugar a seres actuais — aquilo a que se chama reais. E, no entanto, discordo daqueles que negam a existência de centauros e sereias. Existem na imaginação de seres como os homens. Não têm uma existência material, mas mental. Melhor: imaginal. E todos nós sabemos reconhecer uma sereia ou um centauro, apesar de nunca os nossos sentidos terem tido qualquer contacto com eles. É por estas e por outras que mais vale falar do tempo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Macaquices

Nunca fui a Marraquexe – para dizer a verdade, a vontade é nula – mas os portugueses parecem ter uma grande propensão para lá ir. Presumi isto ao consultar, por motivos que não vêm ao caso, a lista de chegadas ao aeroporto de Lisboa. Em menos de três minutos, tinham aterrado ali dois voos, de diferentes companhias, vindos daquela cidade marroquina. Imagino que sejam turistas portugueses de retorno ao lar, pois não me parece que o volume de negócios entre Portugal e aquela cidade, ou mesmo Casablanca, justifique tal número de voos, mesmo que sejam apenas dois por dia. A mente, refiro-me à minha, parece um macaco. De Marraquexe foi para Casablanca, da capital de Marrocos para o filme de Michael Curtiz, deste para Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Desta saltei para Ingmar, também Bergman, e deste para dois filmes: Morangos Silvestres e A Flauta Mágica, uma espantosa encenação cinematográfica da ópera de Mozart. Isto levou-me à ária da Rainha da Noite e desta ao facto de já ser noite e estar frio. Tudo isto para demonstrar que sou habitado, no lugar onde devia estar a razão, por um macaco, um babuíno, por certo. Enfim, não será de admirar que escreva macaquices.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Verdade e autoridade

No evangelho de Nicodemos, um dos evangelhos apócrifos, Jesus, em resposta à pergunta de Pilatos – Na terra, verdade não há? – diz: Vês como os que dizem a verdade são julgados por aqueles que têm autoridade na terra. Não seria diferente a resposta dada por Sócrates à mesma pergunta. Jesus não nega a existência da verdade neste mundo. Torna manifesto um conflito insanável entre a verdade e a autoridade. Ter autoridade na terra significa poder prescindir da verdade. O poder não é apenas algo que se exerce sobre os que o não têm, mas um modo de conformação ontológica. Torna realidade aquilo que é desprovido dela. Nem Jesus nem Sócrates cometeram algum crime, mas o poder – a autoridade – transformou inocentes em criminosos e agiu em conformidade. Quando as pessoas se espantam que gente com grandes problemas com a verdade seja adulada pela multidão e levada ao poder, esquece estes episódios que são marcantes na história da humanidade ocidental. O conflito com a verdade é uma virtude para aquele que aspira a ter autoridade sobre os outros, que aspira a poder moldar a sua natureza, tornando-os inocentes ou criminosos em conformidade com o seu desejo. Apesar de Jesus ter sido executado há mais de dois mil anos e Sócrates há mais de dois mil e quatrocentos, apesar de serem figuras centrais na cultura ocidental, continuamos iguais aos gregos que votaram a condenação de Sócrates e à turba que pediu a morte de Jesus. A verdade não interessa à autoridade porque não interessa aos que a ela se submetem.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Hábitos matinais

Numa dessas redes sociais famosas, a única que frequento – e de forma muito, mas mesmo muito moderada – há um post, acabei de o ler, onde alguém proclama que estudou os hábitos matinais de cinquenta multimilionários – o autor escreveu bilionários – e descobriu que nenhum deles tomava banho frio ou se levantava às quatro da manhã. Eis uma característica que partilho com essas cinquenta figuras arquetípicas que, imagino, povoam os sonhos de parte substancial da humanidade. Confesso que não fui ver os hábitos matinais daqueles cujo talento transforma o chumbo em ouro. Não tenho vocação de alquimista. Aquele post, e milhões idênticos, existe porque tornar-se milionário é a única finalidade que emerge dos valores dominantes da sociedade em que vivemos. Isto cria uma multidão de candidatos a milionários e, como consequência, uma multidão de frustrados e ressentidos com a existência. Ora, se há uma coisa em crescimento nas sociedades ocidentais é o ressentimento. Hordas de ressentidos pululam nas redes sociais, nas ruas e, com maior intensidade, nas cabines de voto. Começam por seguir os hábitos matinais dos cinquenta multimilionários e ao fim de um ano estão mais pobres, claro. A saída é destruir o que estiver à mão. Toda esta tontice já existia, mas em pequenas doses, uma doença controlada. As redes sociais transformaram-na não numa epidemia, mas numa verdadeira pandemia, para a qual ainda não se encontrou vacina. Pior, nem se está à procura.

domingo, 10 de novembro de 2024

Santa Preguiça

Há pessoas precoces. Eu, pobre de mim, sou serôdio, tardego, um retardado. Não me refiro a encontros e compromissos. Nisso, por norma, sou temporão. Hoje deu-me para esta linguagem campesina, que não sei bem onde a descobri. Esta história do serôdio e do temporão relaciona-se com um importante dia cuja comemoração me falhou. A sete de Novembro comemorou-se o Dia Internacional da Preguiça e eu, talvez por estar ocupado a fazer alguma coisa, só cheguei a ele hoje. Em suma, fui preguiçoso em relação ao dia da preguiça. Talvez tenha sido a comemoração mais ajustada para o dia. A maior ironia, porém, está relacionada com o pensador do século XIX que, pelas suas meditações sobre o capital, acabou por hipervalorizar senão o trabalho, o trabalhador. Refiro-me ao alemão Karl Marx. Ora, se há coisa que contrasta com o trabalhador é o preguiçoso. Quem valoriza o trabalhador, valoriza o trabalho e desvaloriza a preguiça. A ironia é ter-lhe calhado em sorte um genro, Paul Lafargue, que escreveu um elogio à preguiça em forma de direito natural. Contra o vício do trabalho, ergue-se o livro O Direito à Preguiça. Só espero que esta preguiça que se comemorou a 7 de Novembro ou aquela de que fala Lafargue não seja um certo mamífero nativo do Novo Mundo, pois não me inteirei de que preguiça tratava efectivamente o dia comemorativo, nem tão pouco evitei a preguiça relativamente ao livro do genro de Marx. Não se pense, todavia, que Lafargue é um caso isolado. Ele próprio cita o poeta e dramaturgo alemão Gotthold Ephraim Lessing - morreu cerca de um século antes de Lafargue dar à luz a sua obra - que não hesita em proclamar: Preguicemos em tudo, excepto no amar / e no beber, excepto no preguiçar. Preguicemos, então. Amanhã é outro dia.

sábado, 9 de novembro de 2024

Espoleta e despoleta

Como não tenho nada para escrever, aproveito o ensejo de um artigo do Público, no qual se usa o verbo espoletar, para fazer uma comunicação urbi et orbi. Reconheço que é um avanço relativamente à deplorável moda de usar despoletar, pois espoletar acorda-se com a função da espoleta numa granada. Contudo, ainda não consegui perceber qual a necessidade de recorrer a estas metáforas militares para dizer desencadear, originar ou provocar. Um dia alguém achou interessante usar despoletar e a atracção foi de tal maneira intensa que provocou uma pandemia de despoletamentos por tudo o que era texto e comunicação oral. Lentamente, lá se foi percebendo que despoletar significa exactamente o contrário, evitar que se desencadeie deflagração da granada. Se não se deve usar despoletar, então que se use espoletar. E começaram a deflagrar espoletamentos sem fim. Deixem as espoletas e as granadas em paz. Já basta quando, no teatro de guerra, têm de ser utilizadas. Usem originar, desencadear, provocar, gerar. Ainda por cima, a palavra está longe de ser esteticamente agradável. Despoletem a mania de espoletar e despoletar por dá cá aquela palha. Isto ainda não é uma guerra.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Pensamentos

Saí para caminhar às cinco e meia da tarde. A noite caía sobre a cidade, envolvendo-a na tenaz da escuridão, cobrindo-a com um véu de negrura, um tule sarapintado pela melancolia da iluminação pública. Nas ruas, as pessoas iam e vinham. Nos parques infantis, havia pais e avós olhando com desvelo as crianças, arrancando com os olhos a noite que sobre elas caía. Não me lembro do que pensei durante o trajecto, mas terei pensado muitas coisas, pois a consciência é um babuíno aos saltos, nunca parando quieta, disparando pensamentos uns atrás dos outros. Para ser exacto, deveria dizer: eu não pensei nada, pois os pensamentos que tive foram acontecendo em mim e não coisas que eu decidi pensar. A maior parte dos nossos pensamentos não são nossos, são deles, que, numa atitude tirânica, se impõem, como déspotas orientais, a nós. Acontece, e não é raro, as pessoas serem vítimas dos pensamentos que nelas se pensam. Ficam obsidiadas pelos invasores, cercadas pela torrente de ideias que as assaltam. A certa altura, fazem coisas que nunca fariam senão fosse a impertinência daquele inimigo que tomou conta delas. Quantos crimes se evitariam caso as pessoas soubessem pôr os pensamentos que nelas se pensam ao longe? Serão elas culpadas dos seus crimes? São culpadas de não resistirem ao cerco dos pensamentos e, por isso, são cúmplices desses pensamentos. Contudo, enquanto caminhei não pensei em nada disto, mas não consigo já recordar o que pensei. E esta é uma grande virtude que possuo. Esquecer-me de coisas que não merecem recordação. Talvez seja a única, e mesmo isso é duvidoso.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Gramática e categorias aristotélicas

Diante de mim tenho, neste momento, uma gramática de português com mais de mil e cem páginas. É uma gramática árdua, cheia de designações que me são estranhas. Perante ela e a sua opacidade – opacidade para a minha ignorância gramatical – senti uma inquietante saudade das antigas gramáticas normativas. Eram gramáticas aristotélicas, embora não saiba se os gramáticos as consideravam assim. Por que razão as associo a Aristóteles? Imagino que seja por causa das categorias. O discípulo de Platão construiu uma tabela de dez categorias: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, acção e paixão. Imaginei, e continuo a imaginar, que sem dificuldade a gramática, aquela que me foi ensinada, se deixaria combinar com estas categorias. Talvez o principal problema esteja na preeminência dada à substância em relação às outras categorias, que não passam de acidentes da substância. A substância é aquilo que é e os acidentes são coisas que podem ou não ocorrer nela. A substância é o que é designado pelos substantivos – nesta volumosa gramática apelidados de nomes – e os acidentes relacionar-se-iam com as restantes classes de palavras, com algumas excepções, pois também aqui não haveria regra sem excepção. Isto, porém, é a visão de um ignorante gramatical, deixando-se arrastar por um saudosismo insensato e imaginando ver coisas que não existem. A sabedoria de Aristóteles manifesta-se na categoria da paixão. Enquanto a categoria da acção nos diz aquilo que uma substância faz, a da paixão indica aquilo que ela sofre. A paixão, qualquer paixão, indica-nos uma passividade – na verdade, uma impotência – da substância. As paixões sofrem-se, não se é delas autor. Contudo, como qualquer outra categoria, a paixão é um acidente e não faz parte da essência da substância. Quanto mais apaixonada é uma substância, tanto mais passiva ela é, pois, mesmo a sua acção, passa a depender daquilo que ela sofre.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Fantasias

Um dia magnífico por aqui. Um começo promissor, que a manhã e a tarde cumpriram. Pena que tivesse passado parte substancial desse tempo em reuniões online cuja finalidade, como é hábito, ainda não consegui descortinar. Tenho uma natureza pouco dada a reunir. Gosto da comunidade, desde que não tenha de a frequentar. A comunidade como horizonte ou pano de fundo é o meu ideal. Contudo, entre a realidade onde me movo e a idealidade com que me consolo, há uma grande distância, tão grande que, caso fosse dado a isso, cairia num grande desconsolo. Não caio, talvez porque não acredite naquilo em que acredito. Isto tem a aparência de ser contraditório, mas é só a aparência. Explico-me. Todos nós para vivermos neste mundo precisamos de ter crenças. Sem elas, a vida seria não apenas insuportável como impossível. Por isso, eu tenho um conjunto de crenças. Por outro lado, suspeito de todas as minhas crenças, o que me leva a descrer naquilo em que creio. Melhor, eu creio firmemente nas minhas crenças, mas sei que elas são fantasias – fantasias produtivas que me permitem andar por este mundo. É evidente que não tenho nenhum grande causa. Ter uma grande causa é esquecer que a crença que a sustenta é uma fantasia. E isso é uma das poucas coisas que não esqueço. Aliás, se ninguém tivesse grandes causas, o mundo seria um lugar mais decente. Aproximamo-nos do crepúsculo e mesmo este está belíssimo, como esteve todo o dia. Imagino que esta minha crença na beleza do dia de hoje seja uma fantasia, mas uma fantasia necessária.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Saber, não saber

Têm estado, por aqui, uns dias verdadeiramente outonais, embora não se saiba muito bem o que definiria um dia verdadeiramente outonal. Também se suspeita, não sem razão, que o Outono não passa de uma convenção humana, um modo, entre outros, de lidar com o tempo. Seja como for, sei o que é o Outono e o que são dias outonais, apesar de não saber nem uma coisa nem outra. Sabemos que estamos no Outono como sabemos que estamos em casa. Reconhecemos a casa, sem que dela façamos uma concepção teórica. É assim que sei o que é o Outono. Reconheço quando estou nele. Saber não sabendo é o melhor. É deste modo que se inicia o capítulo 71 do Tao Te King. É assim que sei do Outono, da minha casa, de mim. Como sei de mim? Habitando-me. É no Outono que me habito melhor, pois eu sou uma morada outonal e o morador dessa casa. Talvez não seja nada disso. Apenas a cinza do dia rasgou o lençol da nostalgia e comecei a pensar que hoje é um dia outonal, até que me perdi e comecei a escrever coisas sem sentido. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Destruições da humanidade

Um artigo do Público online referia as sondas von Neumann e o conceito de singularidade proposto pelo mesmo John von Neumann. As sondas seriam dispositivos auto-replicantes que, lançados para o cosmos, teriam a capacidade de explorar os planetas, de enviar informação para a Terra e – aqui está a novidade – de se auto-replicarem, o que suporia uma espécie de autonomia genésica, através de materiais encontrados nesses planetas, Poderiam constituir uma vasta rede de pesquisa e informação espalhada cada vez mais longe neste nosso universo. A singularidade significaria um ponto no futuro em que a rapidez e extensão do desenvolvimento da tecnologia escapa à capacidade de compreensão humana. Ora, há um comentário ao artigo em que se verbera o autor, pois este não tem em consideração o potencial destruidor da humanidade contido nas duas ideias. É perante coisas destas que tenho pena de não poder viajar no tempo e visitar certos momentos da história da nossa pobre espécie. Até certa altura do nosso desenvolvimento – tal como acontece ainda hoje com os outros animais – os humanos não dominavam o fogo. Imagino que, no tempo em que os homens aprenderam a domesticá-lo e a conservá-lo, não tenham sido poucos aqueles que viram nesse poder sobre o fogo a porta aberta para grandes desgraças. Esta minha especulação tem algumas bases. O mito de Prometeu, o roubo do fogo pelo titã, a sua dádiva aos homens e o castigo de que foi vítima – tudo isso não é mais do que a condensação daquelas vozes que um dia viram no domínio do fogo pelos homens um potencial destruidor da humanidade. Toda a vez que dominamos o fogo, isto é, que desenvolvemos o poder de utilizar de novas formas a matéria e a capacidade de inventar novos dispositivos tecnológicos, levantar-se-ão vozes que nos advertirão que o resultado será um fatal castigo que levará à extinção da humanidade. Ora, estas vozes falham o essencial. O perigo não está no desenvolvimento da tecnologia, mas no facto de não conseguirmos pensar o mistério que esse desenvolvimento encerra. Não são apenas os seres naturais que encerram mistérios indecifráveis. Também os produtos do engenho humano são misteriosos, mesmo que só os consideremos do ponto de vista da utilidade e os abandonemos à sua sorte quando se tornam inúteis.

domingo, 3 de novembro de 2024

Meditação dominical

Chegado a esta altura da vida, penso que tudo, e não apenas o Zen, possa ser o referente das palavras de D. T. Suzuki: Com efeito, está na natureza do Zen escapar a toda a definição e explicação; noutros termos, não pode ser convertido em ideias e descrito em termos lógicos. O que, neste mundo e mesmo num outro, poderá ser convertido em ideias e descrito em termos lógicos? Plausivelmente, nada. Por muito que me esforce para reduzir este domingo a uma ideia e descrevê-lo no âmbito de uma lógica, mesmo que modal, com os seus operadores de necessidade e de possibilidade, os meus esforços serão baldados. Os seres humanos ficaram deslumbrados com o facto de pensarem e, como corolário, com o impacto que, através da técnica, o pensamento tem na configuração das coisas. O deslumbre, devido à intensidade da cintilação, cegou-os e não os deixa perceber a incomensurabilidade entre as coisas e o pensamento acerca delas. As nossas definições não definem nada, nem as nossas explicações explicam seja o que for. Aquilo que é escapa-se sempre à rede com que o tentamos capturar. Defino uma árvore, classifico-a e explico o modo como nasce e se desenvolve, mas ela, se tenho a humildade da atenção, permanece para mim um mistério, não maior ou menor do que eu sou para mim.

sábado, 2 de novembro de 2024

Histórias hegelianas

O mês, refiro-me a Novembro, começou mal-encarado, mas hoje mudou de disposição e tem estado um magnífico dia de Outono. Já não me recordava da história, mas um acaso levou-me a ela. Em Jena, Hegel teve um caso com uma jovem mulher casada. Desse acidente nasceu um rapaz que foi baptizado como Ludwig Hegel. Entretanto, o filósofo foi para Bamberg, não sem antes prometer à mãe do filho, que, entretanto, enviuvara, casamento. Os deuses não estiveram pelos ajustes e fizeram-no encontrar Marie von Tucher. Caiu em estado de adoração por mais esta manifestação do espírito absoluto e esqueceu a promessa a Christiane Charlotte Burkhardt, nascida Fischer. Imagino que na mãe do seu primeiro filho o espírito absoluto se manifestasse com menos vigor. São coisas que acontecem. Quanto a Ludwig, nem tudo correu pelo melhor: a mulher do pai detestava-o. Para piorar a situação, a criança queria ser médica, mas o pai desviou-a para o comércio. Uma decisão fatídica. Hegel encontrou uma ocupação para o filho ilegítimo como oficial na Companhia Holandesa das Índias Orientais. O pobre rapaz terá morrido, em Jacarta, Batávia, na altura, de uma infecção nas vias respiratórias. Em compensação, o pai morrerá três meses depois. Estas informações encontrei-as em Alexander Kluge. Não é claro que Ludwig possa ter tido prazer em reencontrar o pai no outro mundo. Afinal, não lhe faltavam razões para estar decepcionado com o grande filósofo. E, por certo, não seria por motivos filosóficos, nem por disputas sobre a Fenomenologia do Espírito ou a Ciência da Lógica. Também é possível que o pai nem tenha dado pelo filho. Teria o espírito ainda ocupado com a dialéctica e tentava, talvez com um certo desespero, verificar se a negação da negação funcionava naquele mundo onde os espíritos se passeiam sem o revestimento do corpo. Conta-se a anedota de que ao morrer Hegel terá dito Só um homem conseguiu entender-me… e esse não me entendeu bem. Aliás, esta incompreensibilidade hegeliana era partilhada pelo próprio Hegel, que, segundo outra história, terá dito numa aula, talvez ao ser incomodado por um pedido de esclarecimento de um aluno, depois de eu ter dito o que disse, só Deus sabe aquilo que eu disse. Esta anedota, porém, nunca me convenceu. Imagino que o próprio Deus não sabe ou soube alguma vez aquilo que Hegel disse.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Broas dos Santos

Mais do que a totalidade dos santos, o que aqui se comemora no dia de hoje é as broas dos Santos. As famílias faziam as suas, numa produção privada. Hoje, porém, as coisas ficaram entregues ao comércio e a uma pequena indústria caseira. O resultado, deve-se reconhecer, é bastante bom. O facto de haver um mercado e de os fazedores de broas estarem em concorrência levou a um certo esmero na produção dos diversos espécimes. Já experimentei uma de café e outra de mel e nozes, compradas na frutaria aqui ao lado. E experimentar foi mesmo experimentar e não deixar-me arrastar pela tentação que representam para mim. Comi metade de cada uma. Esta frugalidade, tão em desacordo com o que acontecia outrora, mas num outrora cada vez mais longínquo, é o sinal dos anos. De um grande prazer, fica o pequeno consolo da sóbria experimentação. Contava ir para Lisboa. De manhã, ia ver o meu neto na sua aprendizagem de raguebista e almoçar em família alargada. A realidade, porém, não esteve de acordo, e tive de ficar por aqui, num dia cinzento, onde a melancolia se desprende das árvores e desliza, sorrateira, entre casas. Oiço a música de Carlo Gesualdo, o príncipe de Venosa. E tudo parece conjugar-se num espírito crepuscular. O melhor será levantar-me e assaltar as broas. Afinal, os Santos são hoje.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

O sentido

Adeus, Outubro. Sorrateiro, o mês prepara-se para se escapulir, sem deixar rasto ou saudade. Não que tenha sido um mau mês, mas também não terá sido excepcional. Os dias continuam a diminuir, ameaçando o mundo com a sua fuga e o advento de uma noite eterna. Amanhã, será Dia de Todos-os-Santos, uma espécie de memória a granel. Há uns santos especiais, que merecem um dia só para eles; mas, depois, há aqueles santos cuja santidade não terá convencido os juízes que atribuem dias aos santos e, pobres deles, ficaram tolhidos num dia de indiferenciação igualitária. Isso, porém, não é tema para hoje. Das efemérides referentes ao dia de hoje, a que mais me impressiona é a da batalha de Bersebá, em 1917, na primeira Guerra Mundial. Quais as razões para tal admiração? Segundo li, foi a última carga de cavalaria bem-sucedida na História. Eis uma data clara e que marca o fim de um tempo. A partir daquela hora, a cavalaria, entendida literalmente, deixou de ter sentido. Aliás, naquela guerra não faltaram coisas sem sentido, a começar por ela própria. Talvez as guerras sejam mesmo assim. Começam com um sem sentido qualquer e, depois, lá vão elas até que ganhem um sentido e acabem. Não vale a pena encontrarem outras explicações para a guerra. Quando o sem sentido é de tal modo grande, dá-se a irrupção de um conflito que não é outra coisa senão uma busca de sentido, que ponha fim ao estado depressivo da falta de sentido. A guerra é uma luta contra o spleen, a angústia existencial, a náusea e o absurdo. Termino o mês com mais um contributo decisivo para a compreensão do mundo em que vivemos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Vulnerabilidade

Hoje já apanhei um susto. O que causou o susto, felizmente, mostrou-se menos causa de susto do que se chegou a supor. Ora, passado o susto, ficou o espaço para olhar para os efeitos do susto sobre mim. Descobri que o acumular dos anos não nos fortalece a invulnerabilidade. A imaginação, com as suas suspeitas, torna-se mais poderosa, quase maléfica. É nisto que tenho pensado nesta tarde que se tornou negra como a noite. Vejo que deveria estar a cair chuva forte, mas, se chove, é coisa fraca. Alegra-me o vídeo que, entretanto, recebi. O meu neto, nos seus quase seis anos, a marcar um ensaio num jogo de râguebi dos minis. E isto é o outro lado da vulnerabilidade, esta alegria por um pequeno feito do neto, que, na verdade, é apenas uma brincadeira de criança. Aliás, a experiência do aumento da vulnerabilidade está muito ligada à experiência de se ser avô. O que se passa com os netos afecta de uma maneira que não estava à espera. E, estou desconfiado, que a afecção não nasce da fragilidade deles, mas da minha, o que não é coisa fácil de aceitar.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Uma súbita metamorfose

Acabei de ler, no número de Outono de 2024 da revista Electra, um artigo do matemático Umberto Bartocci. Não trata de problemas matemáticos relevantes ou mesmo irrelevantes. O problema deste universitário reformado é o desaparecimento de um jovem físico siciliano, tinha 31 anos, em 1938. Discípulo de Enrico Fermi, Ettore Majorana era uma jovem estrela em ascensão no céu da física. De um dia para o outro eclipsou-se e, até hoje, não se faz a mínima ideia do que aconteceu. Imagine-se o conjunto de teorias que a evaporação do jovem prodígio terá originado. Leonardo Sciascia, um dos grandes escritores italianos, dedicou-lhe um romance, La Scomparsa di Majorana, não traduzido em Portugal, e as especulações e efabulações sobre o que lhe terá acontecido são imensas, segundo o texto de Umberto Bartocci. O próprio matemático, talvez cansado da Matemática, não se poupou e apresenta uma tese, também ela romanesca. Envolvimentos amorosos com mulheres casadas, filhas que terão passado a vida a chamar literalmente pai a outro, conflitos familiares, a começar, como não podia deixar de ser, com a mãe, tudo numa família siciliana. Isto apesar de ele ser tímido no contacto com as mulheres. De efectivo fica-se a saber que Majorana era um grande físico, nomeado aos 31 anos para cátedra de Física Teórica na Universidade Real de Nápoles e que desapareceu poucos meses depois da nomeação. Também se sabe que se filiou cedo, e por convicção, nas juventudes do partido nacional fascista. Bartocci termina o artigo dando a entender que talvez saiba mais do que diz e que, eventualmente, saberá o que terá acontecido ao discípulo de Fermi. O melhor seria que Bartocci escrevesse dois romances. Um sobre o desaparecimento e as razões que assistiram ao desaparecido e outro sobre a sua segunda vida, talvez, imagino eu, com outro nome. Ter-se-á perdido um grande físico, mas, devido a uma súbita metamorfose, descobriu-se uma bela personagem romanesca.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Contribuição decisiva

Chegou a altura de nos lamentarmos por anoitecer tão cedo. A mudança da hora terá por finalidade, duas vezes por ano, gerar uma certa perturbação no ritmo de vida das pessoas. Haverá ainda uma outra finalidade, mas que está em vias de se tornar destituída de sentido. A de acertar o relógio pelo novo horário. Ora, nos tempos que correm, consulta-se as horas em muitos dispositivos digitais, os quais nos roubam o prazer do acerto, tomando-o eles próprios para si. É certo que existem ainda muitos dispositivos, entre eles relógios, que não fazem alterações horárias automáticas, mas lá chegaremos. Resta o prazer de perturbar a vida das pessoas. Diria que essa é uma das prerrogativas dos poderes deste mundo e, apesar da sensatez que seria evitar essas perturbações, aqueles que têm o poder de determinar a hora oficial não evitam a perturbação, pois se o fizessem seriam despojados de um poder, coisa que os perturbaria a eles. Entre a perturbação dos muitos que têm de seguir a hora oficial e a perturbações dos poucos que têm o poder de a determinar, estes últimos agem do modo mais racional possível. Defendem os seus interesses e evitam a sua perturbação por não poderem perturbar os outros. Esta é a explicação mais plausível jamais dada para justificar aquilo que não tem justificação, andar a mexer nos ponteiros dos relógios, ora adiantando, ora atrasando. Fico-me por aqui. Hoje já contribuí para decifração de um dos mistérios que atormentam o mundo.

domingo, 27 de outubro de 2024

Infelicidade e esquecimento

Está um belo domingo. O sol que no Verão é, por estes lados, um poderoso e contumaz inimigo, é agora um aliado na aventura do dia-a-dia. Apesar disso, as minhas pobres netas têm estado por cá, não para coisas agradáveis, mas por motivos ínvios de preparação de avaliações. A escola é um problema sem fim. Para os alunos, para os professores, para os pais e, agora, para os próprios avós que têm de participar na desventura dos pais. Na semana passada, foi o mais novo com as ondas dos is e dos us, agora são as mais velhas com coisas menos ondulantes. Em tempos, numa outra encarnação, havia por casa, não esta, gatos. Descobri que uma gata com ninhada também leva os filhotes à escola, mas ela é a própria professora e ensina-lhes o fundamental. Por exemplo, subir e descer árvores. Ora, aquela escolarização é breve e toda feita de aulas práticas. Uma das desvantagens da espécie humana é a necessidade de uma longa escolarização, em que a maioria dos escolarizados se sente infeliz com os aspectos teóricos que o ensino humano exige. Ora, não há nada mais prático do que uma boa teoria. O problema nasce da idade que, na maior parte dos casos, ainda não é suficiente para perceber isso. Tudo aquilo deve parecer um oceano de abstracções cuja utilidade é invisível, o que no dizer das vítimas se traduzirá por um isto não serve para nada. E aqui descobrimos uma nova desvantagem da espécie humana. Na maior parte dos seus membros, há um conflito entre o dever e o prazer. Não tivesse Epimeteu, quando tirou da terra as espécies animais, esquecido a humanidade e tudo para nós seria mais fácil. Até o dever seria premiado com o prazer. Esse terrível esquecimento criou nos seres humanos uma ferida que nunca sarará. O Homem é um ser ferido por natureza e toda a sua vida é uma luta contra essa patologia originada por Epimeteu, um titã desmiolado e desatento. Também no mundo dos deuses as coisas estão longe da perfeição.

sábado, 26 de outubro de 2024

Degradação

Talvez não devesse mobilizar, nestes textos, referências. A erudição é uma doença e, neste caso, uma aparência de erudição não é uma aparência de uma doença, mas uma doença mais radical e deplorável. Contudo, nem sempre posso evitar o jogo das referências, tal como acontece hoje. No capítulo cinco, “The Degradation of Sport”, de The Cultura of Narcissism – American Life in An Age of Diminishing Expectations, Christopher Lasch defende que aquilo que corrompe uma performance desportiva, tal como degrada um ritual ou um drama, é a sua transformação em espectáculo. É nesta transformação em espectáculo que as actividades humanas se degradam. A seriedade que as habitou perde-se quando se transformam em entretenimento, uma forma de matar o tempo, de lidar com o tédio existencial. Não foi apenas o desporto, o ritual religioso (imagine-se uma procissão em Espanha) ou o teatro que transformaram em espectáculo para entretenimento. A própria acção política, na sequência da degradação do ritual religioso, tornou-se um espectáculo e degradou-se em entretenimento. O sério e o decisivo da existência tornaram-se um logro, um divertissement. É com esta palavra que Pascal, no início da modernidade, trata dessa fuga que impede o indivíduo de se confrontar com o enigma da existência. O desporto moderno, com as suas paixões, é um símbolo de uma existência impotente de enfrentar o mistério colocado pelo facto de se existir. É um símbolo totalizante, pois ele simboliza a degradação de toda e qualquer actividade humana, desde o ritual religioso até à práxis política.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Mais lento

A certa altura, a autora escreve: Desde que os meus movimentos se tornaram mais lentos, a floresta à minha volta ganhou, pela primeira vez, vida. Este elogio da lentidão está em conflito aberto com as exigências das sociedades modernas. Estas são uma revolta contra o prazer de saborear, pois saborear exige que se evite a pressa. Cada vez mais rápido é o lema em que se funda a modernidade. A pressa impede-nos de usar os sentidos na sua plenitude e essa alienação sensorial torna-nos cegos. A floresta de que fala a autora da frase citada, a austríaca Marlen Haushofer, é no romance, A Parede, uma floresta real, tanto quanto uma floresta ficcional pode ser real, mas também é uma metáfora para a existência. A velocidade torna-nos incapazes de saborear a existência, de perceber como ela é viva. É um facto que a narradora e protagonista do romance só chegou a essa hora em que os movimentos se tornam mais lentos depois de um acontecimento decisivo, mas sobre ele não falo. Quem o quiser descobrir que leia A Parede, um grande romance, e a sua grandeza não reside no número de páginas, mas na própria natureza da obra. Em vez de perorar sobre a aproximação do fim-de-semana, vou ler, sem pressa, as páginas finais de A Parede. Também eu cheguei a uma altura em que os movimentos se tornaram mais lentos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Classificações

Olhei lá para fora e pensei que era sexta-feira. Uma ilusão de óptica. Apesar de a tarde de hoje se parecer com uma tarde de sexta-feira, ainda estamos na quinta-feira. A mente humana tem uma curiosa propensão para fazer classificações e, depois, integrar os fenómenos nessas categorias. Ora, essas categorias são arbitrárias e a inclusão nelas daquilo que acontece ainda é mais arbitrário. Contudo, é essa arbitrariedade que nos permite viver. Torna-se num hábito social ou psicológico, torna-se numa tradição ou num ritual declinado pelo indivíduo. Veja-se o caso de a classificação da tarde de hoje no grupo das tardes de sexta-feira ser completamente errada, ainda assim teve utilidade, pois confrontou-me com o facto de que nem tudo o que parece é, e, sendo assim, estas classificações estão abertas ao erro e não devem ser tomadas como dogmas, mas meras indicações para navegar no mar da existência. Ensina ainda outra coisa. Que há tardes de quinta-feira que se parecem com as de sexta-feira. O dia continua a aproximar-se da hora crepuscular, mas ainda há crianças no parque infantil, perfurando o ar com a verruma das sua vozes e o estile dos seus gritos. Não querem saber qual a tonalidade da tarde que vivem, apenas querem vivê-la na plenitude que toda a inocência implica. As vozes calaram-se, mas o ranger das roldanas das cadeiras de baloiço ocupou o palco. Não há pássaros no horizonte e isso é tudo o que me ocorre.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Fado

Sou especialista em esperas num consultório médico. Uma coisa deplorável. Hoje, porém, aprendi a mitigar a avaliação dessas esperas. Uma ida às Finanças foi uma lição exemplar. Três horas e meia depois de chegar, fui atendido. O funcionário foi gentil, mas não tratei de nada, pois faltou um papel do banco, banco esse que através de um funcionário disse não ser necessário. O facto de ter sido atendido e a explicação que recebi de como podia tratar do assunto online amenizaram-me a indisposição. Falta, porém, ir ao banco e conseguir o papel que as finanças pretendem, coisa que não me parece que seja fácil e que me fique barata, segundo percebi da conversa de hoje. Antes de mim estava uma pessoa que foi toda a vida emigrante na Suíça e não percebia como é que estas coisas eram assim por cá. Como para tudo, também para isto tenho uma tese. É uma questão genética. Os portugueses, entre os quais me incluo, apesar de nem sempre passar por tal, têm um gene especial. Esse gene tem por função tornar complicado tudo o que é simples. Mal o português vê um processo simples, logo trata de o tornar complexo. Esse gene está intimamente conectado com os genes que suportam a inteligência, pois, apesar da decisão de tornar complexo o que é simples ser eminentemente estúpida, o português consegue encontrar uma teia de explicações que justificam a complexificação. O normal é a inteligência suportar acções e decisões inteligentes. Não é o caso em Portugal. O nosso gene da inteligência tem por função fundamentar decisões estúpidas. O mais interessante de tudo isto é que nós nem somos culpados. Que culpa pode haver em alguém que não fabricou os seus próprios genes, mas os recebeu? Nenhuma. É a isto que se chama fado

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Instabilidades

Como ontem, o dia de hoje tem uma luz vibrante. O céu, de um azul-pálido, é sulcado por pequenas nuvens de uma cinza esbranquiçada. Formam uma frota dispersa, em fuga, depois de uma derrota em alto-mar. Quase se ouvem os gemidos dos marinheiros moribundos, mas será apenas a imaginação de um narrador sem ocupação. Talvez o bom tempo tenha vindo para ficar. Se assim for, chegará a hora em que se ouvirão lamentos pela falta de água, pelas terras secas, pelas culturas perdidas. Nenhuma novidade. A questão da novidade é interessante, talvez mais do que se pensa. Se pensarmos que tudo o que acontece é único e irrepetível, que nenhum momento é idêntico a outro, chegaremos, de imediato, à conclusão de que tudo o que acontece é novidade. Ora, a ideia que transportamos de novidade está fundada na oposição entre o velho e o novo. Ora, se tudo é constantemente novo, então não há lugar para o jogo de oposição entre velho e novo e, como corolário, não há qualquer novidade. Os móveis velhos daquela sala são, na verdade, continuamente novos, pois a cada instante que passa eles tornam-se outros, numa alteração contínua e sem fim. Eu, narrador deste instante, não sou o narrador que começou o texto, pois a escrita de cada letra me fez ser outro, por muito que eu afirme que sou o mesmo, que sou o velho narrador de há pouco ou de há dez anos. O problema é que não sabemos como lidar com o fluxo da diferenciação e consideramos como iguais coisas – isto é, tudo o que existe – que, constantemente, se tornam diferentes. Confundimos a nossa necessidade psicológica de estabilidade das referências com o facto de as coisas serem estáveis. Não são. Nós também não.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Um delírio palavroso

Os textos escritos neste blogue, durante o ano de 2024, enchem, com o de hoje, cento e trinta cinco páginas A4, com um espaçamento de 1,15 entre linhas. São mais de 82 mil palavras. Todas esta informações são-me dadas pelo processador de texto. Fico siderado pela capacidade de encher tantas páginas sem que tenha uma finalidade para o fazer, nem lhe encontre um sentido que justifique tão expansivo delírio palavroso. Contudo, as adversativas são coisas extraordinárias, há uma analogia com a vida. Também ela, por muito que isso nos desgoste, se desenrola sem finalidade e sem que um sentido se perceba no acontecimento de haver matéria viva num universo de matéria morta. Os textos que escrevo são como a vida. Acontecem como ela. Que relação há entre eles e a matéria morta da minha mente? A mesma que entre a matéria viva e a matéria sem vida do universo. As segundas-feiras são difíceis para este narrador. Nunca encontra objecto de narração e agarra na primeira coisa que saltita diante dos seus olhos. Podia ser a sombra que se estende a esta hora pela cidade e pelos campos. Podia ser o leve ondular das folhas das acácias. Podia ser aquele cão que arrasta uma dona que não larga o telemóvel, enquanto o animal está desejoso de conversar com ela. Podia ser outra coisa qualquer, mas foram as centro e trinta e cinco páginas de coisas inúteis. Agora, porém, vou dedicar-me à utilidade e não é tratar do jardim, que, aliás, não tenho.

domingo, 20 de outubro de 2024

Caprichos

Exercícios de cegueira.  Ontem e hoje procurei um livro para emprestar a um dos filhos. Nada. Percorri estantes e pilhas. Zero absoluto. Olhei para aquela pilha, em que tinha quase a certeza de que era aí que ele devia estar, mais de uma dúzia de vezes. Percorri-a com dedo, livro a livro. Nada de encontrar o malfadado romance. Agora, mesmo no minuto do destinatário, no caso uma destinatária, se ir para Lisboa, olho para a pilha e lá estava ele, bem visível. Há várias possibilidades. Uma delas é que o livro não queria ser emprestado e se escondia. Outra, talvez mais plausível, é que o livro saiu na sexta-feira à noite e só regressou hoje, durante o almoço, quando todos estavam distraídos. Também é possível que o meu inconsciente não quisesse emprestar o livro, mas por muito que me esforce não encontro razão para isso. Pelo contrário. Resta o mistério da cegueira daquele que procura e não encontra. Aliás, não fui o único procurador e não fui o único a deter-me naquela pilha. O livro não estava lá. Nem ontem nem hoje de manhã. Ou então havia uma cegueta generalizada aqui em casa. Generalizada e especializada. Cegos apenas para aquele objecto. Talvez fosse boa ideia comprar mais umas estantes, foi a conclusão unânime, embora eu tivesse pensado que, mesmo arrumado, segundo o critério por aqui usado, não seria visível a não ser na hora que ele decidisse que, afinal, não se importava de viajar até Lisboa. As coisas, tal como os seres humanos, são caprichosas e volúveis.

sábado, 19 de outubro de 2024

Auxiliares de leitura

Experiências. Pega-se num romance, por exemplo, Os Maias, e coloca-se no ChatGPT. A partir daí pode-se pedir uma série infinita de tarefas. Uma experiência curiosa é de pedir que interprete a obra à luz de uma certa teoria literária ou de uma teoria psicanalítica. Pode-se pedir uma interpretação à luz do pensamento de um filósofo, de um antropólogo, etc. O que acontece não é desprezível. O chatbot selecciona um conjunto de conceitos e de teorias proveniente do autor ou da teoria referida no prompt e aplica-os à obra, oferecendo uma leitura baseada naquela perspectiva. Pode-se, então, coleccionar múltiplas leituras psicanalíticas, filosóficas, literárias, religiosas, enfim, do que se quiser. A obra é como a partitura de uma sinfonia ou de um concerto. Depois, os diversos maestros vão-na interpretando conforme a sua visão musical. Ora, esta proliferação, ao infinito, de possibilidades tem alguma utilidade para o leitor? Desde que ele não substitua a leitura da obra pela leitura dos textos gerados pelos algoritmos, o processo pode ser enriquecedor da leitura. O horizonte do leitor alarga-se e a sua capacidade de acolher a obra torna-se mais ampla e mais esclarecida. Um romance, como qualquer obra de arte, é um objecto simbólico. Ora os símbolos suscitam múltiplas interpretações, as quais nunca esgotam o sentido com que esse símbolo está sobrecarregado. Aquilo que estes chatbots nos oferecem é a possibilidade de ter outros pontos de vista que permitam enriquecer a nossa leitura da obra. Em si mesmas, aquelas interpretações valem pouco ou nada, pois não são interpretações, mas podem ajudar os seres humanos a serem melhores leitores. E isso não é pouco. A inteligência artificial não substitui os seres humanos. Só eles podem interpretar Os Maias, mas os algoritmos têm capacidade de associar frases com sentido que os seres humanos compreendem, apesar de o chatbot gerador não compreender o que fez. E isto não deixa de ter significado, pois podemos alargar a nossa compreensão a partir de algo que resulta de um ser que não compreende, não interpreta, não sabe, pois manipular informação, ainda que com acerto, não é compreender, nem interpretar, nem saber.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Pluralismo sensorial

Deixei-me embalar por uma peça de Arvo Pärt, Für Alina, e adormeci sentado defronte ao computador. Como lidar com estas humilhações? O melhor é não lidar e aceitar as coisas como são e, neste caso, recomeçar a ouvir a peça, a qual, diga-se, tem qualquer coisa de embalador. Talvez fosse um exercício de hipnose. Nunca se sabe o que vai na cabeça de um artista. Talvez a cabeça não seja um órgão artístico. Será mais propícia ao filósofo e ao cientista. Também não será o coração. Se a cabeça suporta o filósofo e o cientista, se o coração suporta o homem religioso, o que suportará o artista? Os sentidos. Os artistas pensam com os sentidos, enquanto o monge pensa com o coração e o filósofo e o cientista com a cabeça. Ora o artista tem a primazia, pois enquanto os outros têm ao seu dispor apenas um órgão de pensamento, a cabeça ou o coração, o artista tem cinco. É verdade que há uma especialização. Artes visuais, artes auditivas. Artes tácteis, já menos habituais. Depois, talvez fosse melhor falar em artesanato olfactivo e gustativo. Seja como for, o artista, mesmo que o seu produto se concentre num dos sentidos, parte da pluralidade sensorial. Do monismo da razão, do monismo do amor, passa-se ao pluralismo da sensação. E será este pluralismo primordial que acaba por tornar a arte a mais enigmática das actividades humanas. Hegel pensava que o Absoluto se manifestara primeiro na arte grega, depois na religião cristã e encontrava o seu elemento na filosofia, isto é, na filosofia dele, Hegel. Ora, o conceito, mesmo que dialéctico, é uma abstracção. Só a arte, no seu pluralismo, manifesta a vida desse absoluto. Como se vê, adormecer diante do computador não é coisa recomendável. Uma pessoa acorda com a cabeça cheia de pensamentos sem préstimo e sem sentido, o que é ainda pior.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Uma questão de coragem

Em 1984, o filósofo político francês Julien Freund publicou uma obra com o expressivo título La Décadence. Quando trata da atmosfera de decadência nas literaturas contemporâneos (é necessário não esquecer que o livro foi publicado há 40 anos), escreve: O que me parece digno de relevo é que o artista e o escritor têm muitas vezes, devido à sua sensibilidade específica, uma intuição premonitória das ameaças que podem pesar sobre nós no futuro, ou, antes, tornam-nos sensíveis a fenómenos que por diversas razões evitamos aprofundar e dos quais não queremos tomar uma consciência demasiado precisa. Imagino que a grande arte e a grande literatura o sejam porque lidam com esse perigo ainda escondido. O que está em jogo não é uma questão de profecia, mas de coragem. O artista e o escritor não são profetas, nada lhes foi revelado para ser transmitido aos homens. Eles acedem às mesmas informações e intuições que estão disponíveis para todos. Mas, como Freund salienta, o homem comum evita confrontar-se com o conteúdo dessas informações e intuições. O artista e o escritor olham-nas de frente e é esse olhar frontal que se transforma em obra que parece premonitória. Não é o confronto com o desconhecido que torna grande uma obra, mas é a coragem de encarar aquilo que todos podem ver, mas de que ninguém quer tomar consciência. Precisamos de cuidar dos nossos negócios e o melhor é tomar por divisa um dia de cada vez.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Um intervalo

Por vezes, há períodos da vida em que esta parece um intervalo. São vividos na expectativa de chegar a hora em que tudo é mais sério, mais decisivo. Quando, porém, chega essa hora, descobre-se que a energia foi consumida pela expectativa. Os intervalos são muito mais cansativos do que se supõe. Sei disto, continuou o padre Lodo, não apenas por experiência própria. O confessionário é um lugar de grande aprendizagem. Pensava, respondi, que os padres esqueciam o que ouviam, mal acabavam a função de confessores. Afinal, as confissões são motivo de meditação e aprendizagem, acrescentei. O padre Lodo riu-se. Não podemos apagar a memória, apenas temos o dever de estar calados. Um dever de silêncio, o que não é pequena provação para muitos. Passa-se alguma coisa? A minha pergunta foi recebida com um curto silêncio, depois ouvi um porquê. Porque só costuma ligar ao fim-de-semana e ainda estamos a meio da semana. É verdade toda a gente está presa nos hábitos, ninguém escapa. Apeteceu-me ligar hoje, disse ele. Talvez esteja num daqueles tempos de intervalo e sinto que isso é, na minha idade, ridículo. A única coisa séria e decisiva que posso esperar é morrer. Não exagere, respondi. Não, não estou a exagerar, ouvi. Na verdade, temo que a minha vida se tenha tornado um intervalo até à hora em que deixe este mundo. Falta-me qualquer coisa, algo que seja mais sério e decisivo. Talvez falte a todos, asseverei sem grande convicção. Talvez, respondeu, também ele sem convicção. Desligou sem me perguntar pelos netos. Fiquei preocupado.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Pequenas teorias

A certa altura, num dos seus ensaios, Robert Musil escreve: E, agora, exponhamos uma pequena teoria. Não interessa a teoria que Musil expõe, mas o facto de ser pequena. Por uma questão de elegância todas as grandes teorias, na sua capacidade explicativa, devem ser pequenas, na dimensão. Isto não significa que todas as pequenas teorias sejam grandes explicações. Por aqui, serve de exemplo, não faltam pequenas teorias, mas não ajudam a compreender seja o que for. Nelas não se dão grandes explicações. Para ser mais exacto, não se dá qualquer explicação. As pequenas teorias que aqui são semeadas são exercícios contemplativos, mas sem objecto de contemplação. Valem pela sua enunciação e, na verdade, não possuem qualquer sentido. Têm uma sintaxe, mas não uma semântica. E tudo isto que se disse acerca das pequenas teorias que, por vezes, este narrador propõe é também uma pequena teoria. Seja como for, vale mais meditar sobre isto do que sobre os documentos que preciso de levar às finanças – julgo que agora se chama autoridade tributária – ou como fotografar o número de série da caldeira aqui de casa. Pequenas tarefas, para as quais não possuo nem pequena nem grande teoria. Chove e há beleza nessa ocorrência, o mundo torna-se mais real e a vida mais grave. O mau tempo infunde gravitas na existência. Também isto é uma pequena teoria.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Devaneio

Chegado a casa, preparei-me para ir fazer a minha caminhada. Estava nesses preparos e desatou a chover. Não, não começou a chover. Desatou é a expressão exacta do acontecimento. A chuva é composta por cordas líquidas, como um observador atento poderá comprovar. Há cordas mais grossas, há mais finas e, como não podia deixar de acontecer, há as que não são grossas nem finas, mas, talvez por serem virtuosas, ficam entre os dois extremos. Pelo menos seria a opinião de Aristóteles se escrevesse sobre a virtude das cordas. Ora, as nuvens não são mais do que grandes, complexos e confusos nós de cordas que se entrelaçam e mantêm o cordame coeso e a flutuar na grande planície dos céus. Quando chove, é porque esses nós se desatam e as cordas vêm por aí abaixo, desejosas de regressar à terra de onde partiram. Toda a chuva é um exercício de regresso de um exílio penoso. O céu não é a casa da água. Não era disto que me propus escrever, mas da facilidade com que troquei a acção pela contemplação. Em vez de agir, pondo-me ao caminho, exercitando os músculos e acumulando pontos cardio, aproveitei a chuva e fiquei a olhar para ela. Ver chover, estando resguardo, não é uma experiência menos rica do que contemplar o fogo numa lareira. Ambas as experiências dispensam a acção e abrem a imaginação ao devaneio, fazendo com que o contemplador entre num mundo que os sentidos desconhecem e a razão ignora.

domingo, 13 de outubro de 2024

Cultivo da indigência

Escrevi um texto para outro sítio que não este e que não vem ao caso. Depois de o escrever, decidi perguntar ao ChatGPT a sua opinião, uma espécie de avaliação. Deu-me uma série de conselhos, pertinentes, reconheço, mas não segui nenhum. Um desses conselhos era sobre um certo acontecimento. Ora, o que diz o ChatGPT? Diz que a explicação é interessante, mas está numa única frase longa e cheia de detalhes. Dividir essa informação em várias sentenças pode torná-la mais digerível. Eis um conselho sensato, na linha de outros que me deu, mas que revela um problema. E esse problema está no lado do leitor e não daquele que escreve. O leitor deixou de suportar frases longas, compostas por múltiplas orações. Não se pense que isso nasceu da influência das redes sociais. O Twitter não tem culpas no assunto, pois o problema é muito anterior. Vem da imprensa. As frases devem ser curtas, para prender o leitor. Talvez em tempos recuados tivesse existido alguém que sonhasse em ter leitores educados que apreciariam a complexidade textual, leitores que teriam prazer em seguir um complexo fio de ariadne que os traria à liberdade da compreensão, pois a compreensão é uma das modalidades da libertação, nem que seja da ignorância. Ora, o que triunfou foi a rapidez comunicacional, a busca por uma suposta transparência que permita tornar os textos digeríveis. O Twitter é o herdeiro, em modo hiperbólico, dessa tradição jornalística. Ora o ChatGPT foi educado – digo-o, literalmente – nessa preocupação com o leitor incapaz de decifrar uma frase um pouco mais complexa. Há todo uma cultura instalada, na qual os chatbots estão a ser socializados, que está mais preocupada com os processos de digestão do que na activação de conexões neuronais. Enfrentar textos complexos treina o cérebro para a complexidade. Lidar com textos simples, pode ajudar a digestão, mas torna indigente a faculdade de pensar.

sábado, 12 de outubro de 2024

Um bom fim

Viviam pouco os poetas românticos. Foi o que pensei ao ler uma breve nota biográfica sobre D. José de Esponceda, um dos mais importantes poetas românticos espanhóis. Viveu entre 1808 e 1842. Em 1840, empreendeu uma viagem entre Gibraltar e Lisboa, de que resultou um relato breve publicado no número 8 de El Pensamiento, de Setembro de 1841. A narrativa tem os seus traços de humor. Uma viagem de barco, claro, uma viagem verídica. Um dos passageiros era um comissário de guerra irritadiço, colérico como um porco-espinho e mais afilado do que uma agulha inglesa. Um outro passageiro, uma mulher, de que Esponceda nunca conseguiu saber a nacionalidade, amaldiçoava com destreza e espírito satânico em todas as línguas do mundo. Era uma torre de Babel quando se entretinha a blasfemar. Ora a senhora era casada com um homem que tinha feito a campanha da Rússia com Napoleão e parecia pachorrento e honrado. Criou Deus poucos homens de menor entendimento. Na viagem, além da exímia e multilingue blasfemadora, havia mais duas mulheres que, segundo o autor viajante, se pertenciam ao belo sexo, era mais pelo sexo do que pela beleza. A comida para a viagem só podia ser excelente, pois as provisões consistiam num bacalhau resistente ao dente como sola de sapato e salgado que nem salmoura. A história, porém, tem um belo fim. Chegados a Lisboa, foram visitados pela autoridade marítima que lhes pediu dinheiro. Ele, Esponceda, escreve: Dei-lhes cinco pesetas, as únicas que tinha, e deram-me de troco duas pesetas que atirei ao Tejo. Não ia entrar numa capital tão grande com tão pouco dinheiro. Ora quando se encontra um bom fim, o melhor é não procurar outro.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Inquirições e ocultações

Uma chuva persistente impediu-me de sair para caminhar. Não sou caminhante na chuva, está visto. Será que os nossos longínquos antepassados, digamos de há cinco ou dez mil anos, se abrigavam da chuva? Ou caminhariam sob ela, como se isso fosse a coisa mais óbvia a fazer? Isto levanta uma outra questão. Qualquer um de nós, mal começa a chover, se não tem um chapéu de chuva ou coisa que o substitua, procura de imediato abrigar-se. Contudo, os desportistas, como os jogadores de futebol ou os corredores da maratona, não abandonam a competição e procuram abrigo. Será que o fazem porque neles ainda ressoa uma memória ancestral do tempo em que os homens não se abrigavam da chuva, se é que esse tempo existiu? São estas magnas questões que me atormentam o espírito, agora que se aproxima a hora crepuscular onde o dia e a semana útil morrerão. Neste momento, lá fora uma luz cinzenta ainda mostra o que posso avistar da cidade. Reparo nas acácias. Parecia, ainda em Setembro, que as suas folhas amareleceriam este ano mais cedo. A aparência não se confirma. O amarelo está contido e as folhas continuam num verde exaltante que nem a cinza da tarde consegue toldar. As árvores do bosque da escola ao lado, reparo agora, ainda não cresceram o suficiente para taparem o anúncio luminoso de uma cadeia multinacional de hambúrgueres, que parece estar ali para me espiar. Já do outro lado, um simples pinheiro quase ocultou uma das torres que posso avistar do castelo. A vida é um exercício de ocultações, concluo, embora omita as premissas que levam a tão destemperada conclusão.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Nobel da literatura

De Han Kang, agora premiada com o Nobel, apenas li A Vegetariana, de que gostei bastante. Como não acompanho as intrigas em torno do prémio, fiquei surpreendido com a atribuição. Até porque a premiada é relativamente jovem, ainda na casa dos cinquenta. Tenho a convicção, talvez errada, de que a generalidade dos Nobel atribuídos na literatura é para autores já em fim de carreira, uma espécie de consagração final. Não será o caso da premiada deste ano. A ideia do prémio é interessante, mas sofre de um defeito. O facto de ser anual tornou o Prémio Nobel da Literatura uma banalidade. A princípio, mesmo durante décadas, isso não se notaria, mas agora que número de premiados é grande, muitos deles já esquecidos, a nobelização terá menos impacto no público do que há cem anos. O primeiro Nobel da literatura foi atribuído ao poeta francês Sully Prudhomme, em 1901. Quem lerá ainda os seus poemas? Imaginemos que o Prémio era dado de cinco em cinco anos. Os vinte contemplados num século formariam uma excepção. Com cem parece que a excepção se aproxima da regra. É uma hipérbole, mas torna patente a banalização de se ser laureado com o prémio. Depois, o impacto editorial torna-se cada vez menor. A atribuição do prémio a Jon Fosse, no ano passado, parece ter tido pouco ou nenhum efeito na velocidade da sua publicação em Portugal. E Jon Fosse é um grande escritor. Como haverá escritores que desejam ardentemente o Prémio, também haverá aqueles que fogem dele. Sartre, por exemplo, recusou-o. Pasternak foi obrigado a recusá-lo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Desreconhecimento

Ao acaso, numa das estantes, peguei um livro. Era de Oswald Spengler, uma tradução de 1980 publicada pela Guimarães, de O Homem e a Técnica. Ao ver o título, pensei por que raio terei comprado o livro se não o li. Ao abri-lo, porém, deparei-me com o livro todo sublinhado e anotado por mim. Uma das páginas brancas de separação de capítulo estava completamente escrita. Reconheço a minha letra. Eu li o livro. Estudei a obra. Mas será que o li mesmo, agora que não encontro em mim vestígio dessa leitura? Mesmo ao ler as anotações feitas pela minha mão, estas são-me estranhas. Uma novidade, apesar de serem esmagadoras as provas de que um dia terei dominado bem o que aquela obra diz. Tornei-me um estranho. Entre mim e mim há um hiato, no qual esse mim anterior se tornou um outro, um radicalmente outro, perante o qual não há reconhecimento. Não se trata de uma desavença como aquela que dá vida a um dos poemas portugueses de que mais gosto, Comigo me desavim / Sou posto em todo o perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim. // Com dor da gente fugia, /Antes que esta assi crecesse: / Agora já fugiria / De mim, se de mim pudesse. / Que meo espero ou que fim / Do vão trabalho que sigo, / Pois que trago a mim comigo / Tamanho imigo de mim? O meu problema não é o de Sá de Miranda, pois este ainda se reconhece como inimigo de si mesmo. O meu caso é mais radical e mais triste. Deixei de me reconhecer. Só podemos ser inimigos daqueles que reconhecemos. A inimizade é uma forma, talvez superior, de reconhecimento do outro. Eu, apenas, me desreconheço. Nem para imigo de mim sirvo.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Pathos romântico

Imagino, por vezes, que o mundo teria sido melhor caso o Romantismo nunca tivesse existido. Um mundo onde a ascese da razão servisse para dissolver o espasmo emotivo seria menos dado a grandes perturbações. Quando se celebra o Romantismo sublinha-se a afirmação da individualidade e presume-se a benevolência da subjectividade. Esquece-se, porém, que esse romantismo originou o nacionalismo, ao qual acrescentou a alavanca da emoção e o martelo da paixão. O resultado dessa mistura de emoções, paixões e sentimentos fundados na subjectividade foi simples e objectivo, duas guerras mundiais. O Classicismo e o Iluminismo representavam a rédea curta com que o espírito apolíneo punha ordem no seu irmão, o espírito dionisíaco. Ora, o romantismo foi uma estratégia para Diónisos se libertar da dura disciplina que lhe travava o poder dissolvente inerente à sua natureza. Libertado o deus, o resultado, que ainda não acabou de se manifestar, não foi particularmente entusiasmante. E o problema não está no suicídio do jovem Werther ou do também jovem Simão. O problema está mesmo nos milhões de jovens que enxameiam os cemitérios militares e que não se suicidaram por amor, mas participaram em rituais de suicídio colectivo, criado por um pathos romântico.

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Sensatez e conversão

Quando andei na escola primária, o dia de abertura das aulas era a 7 de Outubro. Na primeira classe, na do meu ano, porém, as aulas começaram a oito, pois sete foi a um domingo. Era um calendário propício à criançada e ainda não consigo perceber por que motivo o meu neto já vai para a quarta semana de aulas. Compreendo que isso seja um alívio para os pais de hoje, mas o alívio dos adultos soa-me a tortura dos mais pequenos. O facto de o começo do ano escolar ser tardio não me impediu de fazer as aprendizagens que tinha de fazer e, estou desconfiado, nada garante que este acréscimo de quase um mês – e talvez não se fique por aqui – não acrescentará nada, do ponto de vista cognitivo, aos alunos. Dar-lhes-á, ainda mais, uma sensação de tédio e o sentimento de que aquilo nunca mais acaba. Pensei isto enquanto fazia a minha caminhada crepuscular. Aproveitei uma aberta e pus-me ao caminho e quando estava mesmo a chegar a casa lembrei-me de que devia comprar nozes. A frutaria é mesmo ao lado. Entrei, comprei nozes e diospiros. De nozes sempre gostei, mas os diospiros é amor recente. Aliás, foi um velho ódio que se transformou em amor, talvez numa paixão. Como se deu essa transformação no meu gosto? Não faço ideia. Foi uma conversão. Paulo de Tarso, a caminho de Damasco, teve uma visão ou audição de vozes e do ódio aos cristãos passou a ter por eles um amor zeloso. A minha estrada de Damasco foi mais prosaica, apenas me converteu à fruta odiada, mas não tive visões nem audições especiais. Hoje é 7 de Outubro, se houvesse sensatez neste país, era hoje que o meu neto começaria as aulas.

domingo, 6 de outubro de 2024

Tigres de papel

Não devia escrever estas coisas aqui, mas não resisti a citar um texto de um homem político que, noutros tempos, inflamou o coração de jovens fogosos, mas que não encontravam quem lhes apagasse o fogo. Espero do autor destes textos e proprietário do blog a caridade da indulgência para com este quase fiel narrador. O homem político é Mao Tse-Tung, alguém que escreveu coisas (sic) com títulos extraordinários, como Uma simples faísca pode pegar fogo a toda a pradaria. Imagino que fosse isso que atraísse os jovens fogosos do Ocidente, que viram nele um deus, que, sabemos hoje, era um deus que não passava de um tigre de papel, uma adaptação de outro título do mesmo homem forte da China, o célebre O imperialismo americano é um tigre de papel. Ora, aquilo que prendeu a minha atenção, foi um título mais prosaico, Conversa sobre questões de filosofia. O texto começa da melhor maneira: Só quando há luta de classes pode haver filosofia. É uma perda de tempo discutir epistemologia à parte da prática. Os camaradas que estudam filosofia deviam ir para o campo. Deviam ir para lá este Inverno ou na Primavera que vem para participarem na luta de classes. Os que não estão bem de saúde também deviam ir. Ir lá não mata ninguém. O mais que lhes acontece é apanharem uma constipação, e se se agasalharem bem não há problema. Não sei a razão, mas isto fez-me lembrar o nosso actual Presidente da República, numa daquelas declarações que faz quando vai ao multibanco ou decide ir comer um gelado. Deixemos, porém, as analogias de lado, pois são sempre enganadoras. Há nestas declarações duas coisas extraordinárias. A primeira liga-se à questão filosófica. Para compreender o racionalismo de Descartes, o empirismo de Locke e Hume ou o transcendentalismo de Kant, não há nada melhor do que ir para o campo, embora, imagino eu, o campo nunca tenha inspirado qualquer teoria epistemológica. A outra coisa é que os camaradas que estudam filosofia – por certo, um equívoco – deviam ir para o campo, não para trabalhar no campo, mas para participarem na luta de classes. Eram coisas destas que incendiavam imaginações no Ocidente, o que é compreensível. Uma razão sensata logo descobriria a infantilidade destas ideias. Só a imaginação, talvez sob efeito de algum psicotrópico, veria nelas um futuro radioso para a humanidade. Ou talvez aquilo que maravilhasse a juventude europeia dos anos sessenta e setenta do século passado fosse o cuidado que o grande timoneiro – era assim conhecido o homem político em causa – tinha com a saúde dos doentes e o agasalho dos friorentos.

sábado, 5 de outubro de 2024

Dia do começo e do recomeço

Hoje é, neste país, o dia do começa e do recomeço. A 5 de Outubro de 1143, começou este país. Como era costume, o início foi uma Monarquia, o Reino de Portugal. Quase oito século depois, talvez porque o país estivesse cansado, isto de acumular séculos exaure as forças a qualquer um, deu-se o recomeço e, como era costume, o reinício foi uma República. Há grandes lições a tirar de tudo isto. O dia 5 de Outubro é privilegiado para começar ou recomeçar qualquer coisa. Se alguém se quiser casar, aconselho o 5 de Outubro, mas se se divorciou e quer recomeçar, nada melhor do que um 5 de Outubro. Começos e recomeços garantidos. A outra lição, mais de índole política, ou melhor, de psicologia colectiva, é que este país é um fiel seguidor da moda. Se a moda é o reino, então ele é um reino. Se a moda muda e se torna republicana, logo ele renasce como república. Nos dias que correm, não há uma querela, a não ser em grupos ínfimos de monárquicos tardios, sobre a questão da república e da monarquia. Felizmente, pois é uma querela sem sentido. Não é a ideia monárquica ou a ideia republicana que nos guiam, é a moda. Se a moda for monárquica, seremos monárquicos. Se for republicana, seremos republicanos. O que diz isto da nossa psicologia colectiva? Diz-nos que somos uma comunidade precavida e que não gosta de contrariar o Zeitgeist. É essa precaução que nos tornou um país de brandos costumes. Eles são brandos porque não são nossos. Usamo-los como quem usa um casaco emprestado, que um dia devolverá. Aqui que ninguém nos ouve, nós nunca fizemos grande questão de ser um reino nem uma república. E nisto reside a nossa virtude.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Teoria sonora

Acabei de fechar uma janela. O zunir incansável de um ar condicionado entrava pelo escritório e aninhava-se no recôndito da minha mente, caso eu tenha mente e esta possua um âmago escondido não sei bem onde. Estes barulhos mecânicos são uma prova da existência do inferno, pois todos eles são infernais. Ora, se há coisas infernais, então o inferno existe. Esse inferno manifesta-se onde menos se espera. Por exemplo, no parque infantil aqui em baixo, onde as cadeiras de baloiço, em que crianças, sob o olhar de pais cansados, vão e vêm, rangem como mil belzebus depois de uma noite de copos ou mesmo de sex, drugs and rock ‘n’ roll. Até o meu carro está possuído por um súcubo que o faz arfar de modo despudorado. Para a semana, levo-o à oficina para o exorcizarem. Pode-se pensar que esta ligação entre o ruído mecânico e os ventos infernais é pura especulação de um ocioso, numa tarde de sexta-feira anunciadora da ociosidade do fim-de-semana. Não é. A prova é que o céu – isto é, os poderes celestiais – também têm também a sua sonoridade, na vibração das cordas da harpa, da lira ou da cítara. E aqui reside o magno problema da nossa civilização. Enquanto os ruídos mecânicos rangem, guincham, chiam e resfolegam por tudo o que é sítio, harpas, liras e cítaras escondem-se, como se fossem tomadas pela timidez perante o despudor de um caos mecânico. Um dia destes ainda escreverei um apocalipse.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

A benévola ilusão

Respiro fundo e penso que todos chegamos a um momento em que percebemos que o nosso tempo passou, que já não conseguimos lidar com a realidade tal como tínhamos feito. Nesse momento, percebe-se que se está a mais, e que é tempo de ocupar os dias de outro modo, um modo que a realidade nos permita. Não sei se pensei isto ou se o terei sonhado, pois, como o disse Descartes, não há critério seguro para distinguir o sonho da vigília. Aliás, com o passar dos anos descobrimos que não há critério seguro seja para o que for. O que existe é uma ilusão, a certa altura da vida, em que se é detentor de critérios seguros para o que se pensa e para o que se faz. É essa ilusão que evita que soçobremos num cepticismo contumaz e na mais pura apatia. A natureza, com a generalidade das espécies, foi generosa, pois não as dotou da faculdade de pensar e ligou-as às respostas instintivas que lhes permite sobreviver, sem que possam pensar nisso. Com a espécie humana, a mesma natureza decidiu fazer uma experiência e dotou-a de pensamento. Logo percebeu que a ideia não fora a melhor, pois pensar pode ter as mais funestas consequências para uma espécie que sabe que sabe que sabe que é finita e limitada. Então, essa mesma natureza, compadecida dos homens, deu-lhes a imaginação para fabricarem as ilusões que os prendem à existência, que lhes disfarça mesmo a evidência de que o seu tempo passou.